quinta-feira, agosto 09, 2012
"Chernobyl"
"Chernobyl" tinha tudo para ser um filme de terror diferenciado. Dirigido por Bradley Parker, tem como pano de fundo a cidade-fantasma de Pripyat, na Ucrânia, que teve de ser evacuada às pressas em 1986, quando do acidente nuclear na usina de Chernobyl.
Até hoje está proibida a permanência de humanos no local devido ao perigo da radiação. Claro que curiosos arriscam-se a vasculhar as ruínas de Pripyat, onde moravam os funcionários da usina. O máximo que uma pessoa pode ficar na cidade é duas horas. E é este o tempo que seis turistas e um guia ucraniano têm para percorrer as ruas abandonadas de Pripyat. A primeira meia-hora de "Chernobyl" é instigante, com os personagens fuçando cada pedaço do local, e metendo a mão em objetos contaminados e, com isso, ficando borrados de medo. O espectador dá pulos nervosos na cadeira. Até que cai a noite e acaba o suspense.
A partir deste momento, "Chernobyl", que note, não é o nome da cidade e sim da usina, torna-se um filme de zumbis, onde os turistas passam a ser perseguidos e devorados por antigos moradores de Prypiat - que afetados pela radiação, só saem à noite em busca da carne de desavisados. O roteiro lembra e muito, e talvez tenha sido baseado, em "A Última Esperança da Terra", com Charlton Heston e refilmado como "Eu Sou a Lenda", com Will Smith.
Cotação: regular
Chico Izidro
quinta-feira, agosto 02, 2012
"Vou Rifar Meu Coração"
O amor vai pegar seu coração e deixá-lo sangrando no chão. Uma das melhores definições sobre este sentimento que nos transtorna e que não aparece no documentário "Vou Rifar Meu Coração", de Ana Rieper. E bem que poderia estar lá. Afinal, é exagerada. E será que exagero é sinal de brega?
Pois bem, "Vou Rifar Meu Coração" mostra um Brasil quase subterrâneo da música brega e seus ídolos. O título foi tirado de uma música de Lindomar Castilho, ícone do gênero nos anos 1960 e 70 e que entrou para a história não pelas centenas de músicas gravadas, mas por ter levado ao extremo o ciúme: matou a esposa Eliane de Grammont em 1981, ficando preso por sete anos, e neste período gravou o disco Muralhas da Solidão.
Ana Rieper também colhe depoimentos de artistas como Odair José, Amado Batista, Wando e Agnaldo Timóteo, este mostrando uma total arrogância. "Sou preto, cabelo ruim, mas canto muito. Mais do que Roberto Carlos", exalta. Todos eles fazem parte dos anos românticos da música brega. "Vou Rifar Meu Coração" avança para a época atual, onde o brega abandona as letras sobre traições, prostitutas e chutes na bunda para explorar temáticas eróticas, quase pornográficas.
Interessante é mostrar o Brasil interiorano, que parece ter parado no tempo e suas figuras exóticas, com camisas com golas longas e abertas no peito, bigodinhos e cabelos engomados. Sem contar as indefectíveis joias. Todas pessoas simples com uma história interessante para relatar. Abandonadas pelo amor de suas vidas, ou que se apaixonaram por prostitutas, ou que mantém relacionamentos de décadas com duas mulheres e tem filhos com elas. O depoimento de um prefeito de uma cidadezinha baiana e suas esposas de quase quatro décadas é hilário.
Esses personagens não se importam em mostrar a cara e revelar suas dores de amor. Diz uma delas: "Sou brega sim. O pobre é brega". Um cantor de boate de periferia revela seu gosto por bandas pesadas como Deep Purple, Black Sabbath e AC/DC.
O pobre e o rico sofrem igual. "A única diferença é que o operário, quando leva um fora, vai chorar no seu barraco. O médico vai chorar em seu apartamento com vista para o mar", filosofa Odair José, autor do clássico Eu Vou Tirar Você Deste lugar, sobre um rapaz que apaixona-se por uma puta.
Cotação: ótimo
Chico Izidro
"A Primeira Coisa Bela"
Bruno é um homem amargurado, viciado em drogas, que não vê a mãe, Ana há 30 anos. Até que a irmã Valeria lhe procura com o aviso: Anna está com câncer em estágio terminal. É a hora de Bruno fazer as pazes com o passado em "A Primeira Coisa Bela", de Paolo Virzi.
O protagonista, então parte da cosmopolita Milão para a litorânea e pequena Livorno, onde irá rememorar a sua infância, adolêscencia e começo da fase adulta ao lado da mãe e da irmã. Os três não tiveram uma vida fácil. Aos sete anos, depois de Anna ser eleita a mais bela mãe num concurso na praia, ele e as duas são expulsas de casa pelo seu pai enciumado. Anna, vivida então por Micaela Ramazzotti, é dona de uma beleza estonteante e objeto de desejo de todos os homens que a cercam. Destrambelhada, mete-se nos mais variados problemas, fazendo com que Bruno cada vez mais torne-se uma pessoa introspectiva, amargurada e rancorosa.
O cinema italiano tem uma facilidade incrível de lidar com o sentimentalismo sem ser piegas. Mesmo que lá estejam os tipos característicos como a tia maldosa e invejosa, o marido estérico, o falante compulsivo, o amante latino e sua peruca rídicula. Tudo é colocado, no entanto, de forma tão sutil, que mesmo o filme se encaminhando para um triste desfecho, não apela, fazendo com o espectador até caia no choro. Porém de forma natural.
A veterana atriz Stefania Sandrelli, de "O Último Beijo" e "Nós Que Nos Amávamos Tanto" destaca-se como Anna na terceira idade, mas a belíssima Micaela Ramazzotti é o grande destaque de "A Primeira Coisa Bela". E Valério Mastandrea como Bruno também é um achado e em total sintonia com seu "eu na infância", o garoto Giacomo Bibbiani, que não necessita de muitos diálogos para retratar o sofrimento e o constrangimento que permeiam sua vida. Suas feições carrancudas mostram uma criança que vê o mundo ao seu redor virar de cabeça para baixo.
Cotação: ótimo
Chico Izidro
"Bel Ami"
Filme baseado no livro homônimo de Guy de Maupassant, "Bel Ami", fala sobre a ascenção social de um ex-soldado semi-analfabeto e mulherengo na Paris da década de 1880, que vira jornalista graças à ajuda de um ex-colega de armas e de uma dama que escrevia os textos para ele.
Robert Pattinson, o vampiro E dwardo de Crepúsculo, é quem vive o sedutor Bel Ami. Para fugir da miséria que o cerca, o personagem não tem pudores em seduzir mulheres importantes da alta sociedade parisiense. Elas são Virginie Walters (Kristin Scott Thomas), Madeleine Forestier (Uma Thurman) e Clotilde de Marelle (Christina Ricci).
Pattinson, porém, é o problema do filme dirigido por Declan Donnellan e Nick Ormerod. O ator, e isto é notório, é fraco, não tendo cacife para interpretar um sedutor. Suas expressões são sempre as mesmas, seja sofrendo, amando, gozando. Ele olha perdido para os atores à sua volta, principalmente Kristin Scott Thomas, de "Quatro Casamentos e Um Funeral" e "Há Tanto Tempo Que Te Amo".
Fosse outro protagonista, "Bel Ami" seria um filme exemplar. A pulsante Paris, que vivia o período da Belle Époque, da última década do Século XIX, é rigorosamente reconstituída. Assim como o clima frequente de festa, onde os homens e mulheres se perdiam em bebedeiras e jogatinas nos cabarés.
Cotação: regular
Chico Izidro
"Além da Liberdade"
Levar às telas a vida de uma personalidade pública e histórica não costuma ser fácil. Corre-se sempre o risco de se cair no didatismo, pedantismo e se esta figura representa os direitos humanos, transforma-la num santo. E sabe-se que nem mesmo Nelson Mandela e Gandhi o eram. Então a vida da ativista política e Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi fica no limite em "Além da Liberdade", um título clichê para o original The Lady ou A Dama, de Luc Besson, diretor de O Quinto Elemento, O Profissional e Cão de Briga.
"Além da Liberdade" mostra de forma não-linear a luta de Suu Kyi, que ganhou o Nobel em 1991, pelo fim da ditadura na antiga Birmânia, hoje Mianmar. Casada com um inglês, o professor de Oxford Michael Aris (o eterno coadjuvante David Thewlis, de Sete Anos no Tibet), Aung San Suu Kyi é filha de um antigo político birmanês assassinado em 1947. Ela passou boa parte da vida no exílio e nos anos 1980, ao voltar ao país para ver a mãe, que agonizava, acabou sendo convencida a entrar na luta pela democratização da Birmânia. Aceito o desafio, entrou num impasse. Foi colocada em prisão domiciliar e seus seguidores perseguidos ou assassinados.
Aung San Suu Kyi até tinha a escolha de deixar o país, mas nunca mais poderia pisar lá novamente. Seu marido foi proibido de entrar na Birmânia - e os dois, democratas - decidiram que ela deveria levar até o final a briga com os militares. Mesmo quando Aris ficou doente, de câncer, Suu Kyi negou-se a abandonar sua casa, sua prisão, na capital Rangoon. Eleita presidente, nunca conseguiu assumir o cargo por causa de um golpe. A situação em Mianmar em 2012 permanece quase inalterada.
Aung San Suu Kyi é vivida com força e magnitude pela atriz malaia Michelle Yeoh, de "O Tigre e o Dragão" e "007- O Amanhã Nunca Morre". Thewlis também está bem. As cenas das manifestações políticas e a trama, empolgam. Besson, porém, foi relapso em outros aspectos: Thewlis também vive o irmão gêmeo de Michael. E as tomadas dos irmãos conversando beiram o amadorismo. Os militares são vividos por atores tão ruins, tão ruins, que soam caricaturais. Ao invés de meter medo quando surgem na tela, provocam o riso involuntário.
Cotação: regular
Chico Izidro
"O Que Esperar Quando Você Está Esperando"
O preconceito impera sim. Ao saber que "O Que Esperar Quando Você Está Esperando" é estrelado por Jennifer Lopez, pensei cá com meus botões: é uma bomba. E a previsão não estava erarda. O filme dirigido por Kirk Jones (A Fortuna de Ned) é baseado em um guia para gestantes, de Arlene Eisenberg, Heidi Murkoff e Sandee Hathaway e lançado em 1984. E um amontoado de clichês e atuações exageradas.
A trama gira em torno de vários casais querendo ter seus rebentos. Jennifer Lopez e Rodrigo Santoro são o casal latino. Ela é estéril e quer adotar um bebê. Ele tem dúvida se realmente deseja ter um terceiro ser em casa. Elizabeth Banks e o esquisito Rob Huebel esperam um bebê, só que têm de conviver com a concorrência do pai dele, vivido por Dennis Quaid, e da jovem esposa, interpretada por Brooklyn Decker, também grávida. O personagem de Quaid é um ex-piloto de Fórmula Indy, que adora mostrar ao filho o quando é melhor.
Tem ainda a mulher de 40 anos, dançarina e professora de ginástica, Cameron Diaz, que grávida, não para um minuto e não sabe se o seu namorado vai casar com ela. E a garota que encontra um antigo casinho de escola, transa, fica grávida. E o cara, evidente não se sente preparado para ser pai.
As atuações são histriônicas, principalmente o veterano Dennis Quaid, histérico além da conta. E aquela cena em que um grupo de homens surge no horizonte em câmera lenta - culpa de Tarantino - está lá. No caso, cinco pais e seus filhos à tiracolo, numa profusão de diálogos bobos e repetitivos. Bola fora.
Cotação: ruim
Chico Izidro
"Aqui é o Meu Lugar"
O personagem principal de "Aqui é o Meu Lugar", o roqueiro sequelado Cheyenne poderia ter caído no caricatural, não tivesse sido interpretado por Sean Penn. A trama, dirigida por Paolo Sorrentino, toda é meio doida, quase absurda, por isso magnetizante.
Cheyenne tem um visual Robert Smith, do The Cure, é deprimido, fala e andar arrastado como Ozzy Osbourne, e vive com a mulher de toda a vida, Jane (Frances McDormand, de Fargo) em sua mansão em Dublin, na Irlanda. É exótico, com seus 50 anos e cabelos desgrenhados e maquiagem pesada. E desde que dois fãs se suicidaram por causa de uma de suas músicas (referência óbvia a Suicide Solution, de Ozzy), parou de cantar e compor. Vive do que amealhou nos anos 1980.
O antigo astro de rock gótico, porém, terá de voltar à vida quando seu pai, a quem não vê há 30 anos, encontra-se à beira da morte, em Nova Iorque. Ele retorna aos EUA, e no leito de morte do pai, fica sabendo que esse passou boa parte da vida tentando capturar um nazista que o torturou em Auschwitz durante a II Guerra Mundial. Sim, Cheyenne é judeu, mas vive longe das tradições de sua religião.
Entã, a partir deste momento, "Aqui é o Meu Lugar" torna-se um road-movie, onde Cheyenne sairá em captura do nazista. Ao mesmo tempo que terá de amadurecer, mesmo que tardiamente. O nome do filme no original em inglês, This Must Be the Place, é tirado da música homônima dos Talking Heads, uma das bandas pop emblemáticas dos anos 1980. E não bastasse a presença de David Byrne, líder e vocalista do grupo, dando uma orientação ao roqueiro, o filme está repleto de referências àquele período. Uma cena mostra o quanto Cheyenne está ligado ao período. Ao tocar a música para um garoto, esse diz ser do grupo Arcade Fire. O roqueiro corrige: "Não, ela é do Talking Heads", ensina. Para ele, Arcade Fire não significa nada.
Cheyenne é vivido com primazia por Sean Penn, mostrando mais uma vez sua extrema versatilidade. Tanto como um roqueiro ultrapassado, quanto um militante homossexual, um pai arrasado pela morte de um filho ou um violento gângster. Ele é o filme.
Cotação: bom
Chico Izidro
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