domingo, maio 31, 2026

“EU NÃO TE OUÇO”

Foto: Amaia Filmes
“Eu Não Te Ouço”, dirigido por Caco Ciocler, é um road-movie brasileiro e inesperado, cercado de nonsense e humor. O longa-metragem é baseado em fatos reais, pegando como personagem aquele patriota que em 2023, durante os protestos golpistas, se segurou no para-brisas de um caminhão. O bolsonarista viajou durante várias horas, percorrendo 15 quilômetros na BR-232 em Caruaru (PE).
Em “Eu Não Te Ouço”, a ideia é imaginar o que as duas pessoas que protagonizaram o evento estavam pensando. Os dois, motorista e patriota são interpretados pelo ator Márcio Vito. O filme levanta questionamentos sobre o momento político que a sociedade brasileira vive.
De dentro da cabine, o motorista tenta uma conversa impossível, seja pelo barulho do vento, seja pelo vidro que separava aqueles dois mundos. “O filme é também sobre esse vidro. Sobre o país que, três anos depois, segue tentando uma conversa consigo mesmo que soa cada vez mais impossível. Não mais pelo dito — a oposição dos discursos — e sim pelo que não se escuta”, explicou Ciocler.
Cotação: bom
Duração: 1h12
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=esfeMSQjpv8

“FORA DE CONTROLE” (Dis-moi juste que tu m'aimes)

Foto: California Filmes
“Fora de Controle” (Dis-moi juste que tu m'aimes), com direção de Anne Le Ny, parece ser aquelas comédias de erro, quando uma esposa fica enciumada com o surgimento de uma antiga paixão de seu marido, e acaba se envolvendo em um relacionamento extraconjugal. Mas no final acaba sendo uma obra que pega mais fundo, até lembrando um pouco “Atração Fatal”, de 1987.
Na trama, Marie (Élodie Bouchez) é casada há 15 anos com Julien (Omar Sy). O casal tem uma filha adolescente adorável, e vive em harmonia. Ele conselheiro na escola local, e ela, executiva de uma empresa.
Só que a relação é abalada quando a ex-namorada de infância de Julien, Anaëlle (Vanessa Paradis), volta para a cidade e abre um bar, disposta a ficar para sempre. Marie se mostra ameaçada com a presença de Anaëlle e cega de ciúmes, começa a ter um romance com o seu chefe, Thomas (José García).
Só que Marie não sabe que está sendo manipulada por Thomas, que no começo parece o amante perfeito, compreensivo, sem imaginar que ele inventa situações entre Julien e Anaëlle. E aos poucos, Thomas vai se mostrando uma pessoa perigosa e abusiva, e insistindo para que Marie abandone a família e fique com ele.
Filmado na região francesa da Bretanha, o filme foi descrito pela revista Screen Daily como “uma espécie de Atração Fatal com inversão de gênero.
Dirigido por Anne Le Ny, parceira de Omar desde sua revelação como ator, “Fora de Controle” retoma o tema da infidelidade que a diretora já havia explorado em seu longa anterior, “Le Torrent”, que trazia no elenco José Garcia, que já estrelou três filmes ao lado de Sy.
Cotação: bom
Duração: 1h51
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5Db8h1T4ke8

“OBSESSÃO” (Obsession)

Foto: Universal
Em “Obsessão”, direção de Curry Barker, temos um dos grandes filmes de terror dos últimos anos. Na trama, o jovem Bear (Michael Johnston), que trabalha com os amigos Ian e Sarah, na loja de instrumentos musicais do pai de Sarah, é apaixonado secretamente pela amiga Nikki (Inde Navarrete, simplesmente sensacional), mas quer se declarar para a garota.
Então certo dia, frustrado após achar o seu gato de estimação morto, depois de ingerir acidentalmente oxicodona, Bear entra em um bazar, onde compra um presente para Nikki, um bastão chamado "Salgueiro dos Desejos", um brinquedo curioso que promete realizar um desejo por pessoa quando quebrado.
Naquele mesmo dia, Bear dá carona para a garota, que pergunta se ele gosta dela, mas ele nega e desiste de dar o presente para Nikki. Porém, Bear decide usar o bastão, desejando que Nikki o ame mais do que qualquer pessoa no mundo.
Imediatamente Nikki passa a amar profundamente Bear, e os dois passam a namorar. Porém, o jovem começa a perceber que o preço pelo pedido é mais caro do que possa se imaginar, já que a garota fica obsessiva por ele, demonstrando muito ciúmes dele e tendo um desejo de posse tremendo.
As coisas, enfim, saem do controle, e Nikki passa a ficar violenta com quem se aproxima de Bear, e até mesmo se mutilando, quando se sente rejeitada.
O filme é realmente assustador, com cenas violentas e inesperadas – uma delas sendo um dos personagens sendo assassinado com tijoladas no rosto.
E se o espectador pergunta se o bastão atendia apenas um desejo por pessoa, por que Bear não comprou outro e fez novo pedido? Simples, porque cada pessoa só tinha direito a um desejo, não importando quantos bastões adquirisse. Bela sacada.
Cotação: ótimo
Duração: 1h49
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=3z9AHxBH600

“O BOLO DO PRESIDENTE” (The President’s Cake)

Foto: Kajá Filmes
“O Bolo do Presidente”, dirigido pelo iraquiano Hasan Hadi, mostra os absurdos do ditador Saddam Hussein (1937-2006), que governou o Iraque com mão de ferro entre 1979 e 2003.
O filme é ambientado no país do Oriente Médio nos anos 1990, durante o período de sanções econômicas imposta pelos Estados Unidos após a invasão do Kuwait no que ficou conhecida como a Guerra do Golfo. A população vivia, então, empobrecida, desemprego desenfreado, fome e mais uma série de problemas. Mesmo assim, Hussein não perdia sua empáfia e exigia devoção total à sua pessoa.
Perto de seu aniversário, exigiu que toda a população comemorasse o seu aniversário. E isso vai afetar a pequena Lamia, uma garota de apenas nove anos criada pela avó, Bibi. Em sala de aula, todos os dias, as crianças deveriam fazer orações e provar sua fidelidade ao ditador.
E à véspera do aniversário de Saddam, o professor exige que alguns alunos levem para a escola homenagens para o ditador. E para Lamia, o professor exige que ela prepare um bolo cremoso em homenagem ao aniversário do presidente. Descumprir a exigência custaria uma severa punição para ela e a avó.
Então, e m meio à escassez extrema de alimentos e ao clima de medo instaurado no país, Lamia embarca em uma jornada em busca de ovos, farinha e açúcar. Ao lado da avó Bibi, do amigo Saeed e do inseparável galo Hindi, ela atravessa mercados, estradas e postos policiais, em uma narrativa que mistura delicadeza e humor melancólico.
Filmado inteiramente no Iraque e com elenco majoritariamente formado por atores não profissionais, “O Bolo do Presidente” aposta em um olhar íntimo e humanizado sobre um período histórico marcado pela violência e pela privação.
“Espero que o filme possa servir como um documento visual daquela era do país. Também tentei adicionar camadas ao filme através das locações. Gosto que os lugares façam parte da história, que provoquem certo sentimento ou transmitam um ponto específico sobre a narrativa ou sobre o mundo em que vivemos.”, disse Hasan Hadi.
O roteiro é assinado por Hasan Hadi ao lado do vencedor do Oscar Eric Roth (“Forrest Gump”, “Assassinos da Lua das Flores”). Entre os produtores executivos estão nomes como Marielle Heller e Chris Columbus. O filme venceu ainda a prestigiada Caméra d’Or no Festival de Cannes 2025, prêmio de Melhor Estreia em Longa-Metragem, além de receber o Prêmio do Público da Quinzena dos Realizadores.
Cotação: ótimo
Duração: 1h45
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=gKDyBjDBl4s

“A REVOLUÇÃO DOS BICHOS” (Animal Farm)

Foto: Paris Filmes
Dirigido por Andy Serkis, “A Revolução dos Bichos” (Animal Farm), é uma releitura do clássico escrito por George Orwell (1903-1950) em 1945, e que denunciava a ditadura stalinista na hoje extinta União Soviética. Na trama, os animais de uma fazenda se rebelam contra os seus donos, os seres humanos, e os expulsam, obtendo assim suas liberdades. Eles passam a se autogovernar, mas logo começam a surgir divergências, pois os porcos passam a comandar o lugar, primeiro através de Bola de Neve (Laverne Cox), que cria regras para o convívio entre todas as espécies.
Mas depois, Napoleon (Seth Rogen) dá um golpe, e começa a desfazer as regras anteriores, conforme ele e os demais porcos se tornam parecidos demais com os humanos, que antes eram os inimigos. Uma das regras era que nenhum animal andaria sobre duas patas, apenas com quatro. E logo Napoleon e seus asseclas passam a andar sob as duas patas, querendo se afirmar mais inteligentes do que os outros. E para piorar, os porcos se mudam para a casa grande – outra quebra das regras – e se aliam com os humanos, e começam a usufruir das benesses do capitalismo, e escravizando as demais espécies.
Porém, um personagem criado para o filme, o pequeno porquinho Lucky (Gaten Matarazzo) tenta ser a luz e trazer harmonia para todos, mas ingênuo, é constantemente enrolado por Napoleon. Lucky é o bichinho fofinho para agradar a criançada, pois o filme não sabe a quem se dirigir, se ao público adulto ou ao infantil. Mas pode ser interessante para fazer as pessoas a ficarem interessadas em lerem a obra original de George Orwell.
Cotação: regular
Duração: 1h35
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=f-s_myv0xj0

“BUENOS AIRES”

Foto: ArtHouse
“Buenos Aires” é documentário dirigido por Tuca Siqueira que acompanha uma pequena cidade brasileira que compartilha o mesmo nome da capital argentina. Seus moradores celebram essa coincidência por meio de vínculos afetivos, manifestados no futebol e na cultura durante a Copa do Mundo de 2022, no Qatar, e vencida pelos argentinos.
A Buenos Aires brasileira fica na Zona da Mata de Pernambuco, no Nordeste do Brasil. E é dividida em quem se orgulha de se considerar argentino e dos brasileiros raízes. Estádio Bombonera, Boca Júniors, Messi como o maior ídolo no futebol atual, tango nas rádios. Tudo isso pode ser encontrado em Buenos Aires, na Argentina… e em Buenos Aires, Pernambuco, mais 3 mil quilômetros de distância de sua irmã.
Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas.
Apesar de não haver vestígios da passagem de portenhos pelo lugar, alguns habitantes enfatizam a coincidência de diversas formas e criam um vínculo afetivo com o país vizinho, usando camisetas da seleção albiceleste, e torcendo fanaticamente pelos Hermanos em jogos da Copa do Mundo.
Inclusive existe um time de futsal na cidade, batizado de Boca Juniors, e que faz um clássico com uma equipe de uma cidade vizinha, o Peñarol, em jogos com direito a taça para os vencedores.
Existe apenas um morador argentino na localidade, um homem que conheceu uma brasileiro e apaixonado, decidiu fixar residência no município.
Seria cômico não fosse trágico o amor incompreensível destes brasileiros pelo país vizinho, que costuma menosprezar o povo daqui. Cabe um estudo antropológico nesta cidade impar.
Cotação: bom
Duração: 70 min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=f0sVZgKkRto

“LABIRINTO DOS GAROTOS PERDIDOS”

Foto: Filmicca
“Labirinto dos Garotos Perdidos”, direção de Matheus Marchetti, mostra um retrato da experiência homossexual na São Paulo dos dias de hoje, baseado em vivências pessoais e relatos de amigos. Mas não é um documentário. O filme mostra o jovem interiorano Miguel (Giuliano Garutti), recém-chegado a São Paulo para encontrar um namorado que conhecia apenas por mensagens de aplicativos. Mas aos poucos, Miguel, sentindo uma frieza do parceiro, começa a ter encontros com outros homens pela cidade, ao mesmo tempo que um assassino de gays vem praticando seus crimes.
“Labirinto dos Garotos Perdidos” retrata de forma ousada e desinibida as variadas experiências de se relacionar romântica e sexualmente. O filme é ousado em cenas quase explicitas de sexo gay, e conta com a narração da atriz Tuna Dwek.
“O filme é sobre sobre como essas experiências podem ser ora engraçadas, ora prazerosas, ora assustadoras, ou às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Apresentado ao meu estilo, como um conto de fadas, o filme é uma fábula que troca o bosque encantado pelas vielas e parques da cidade, habitados por outros tipos de monstros e criaturas da noite”, disse o diretor Matheus Marchetti.
Para o diretor, “esse é um filme sobre prazer, feito com muito prazer pelo nosso time, e que espero que dê muito prazer ao espectador também, em todos os sentidos”. “Que o passeio por esse estranho labirinto seja encantador e fascinante, tanto para aqueles que já passaram por situações parecidas e vão se identificar quanto para os que vão descobrir esse universo mágico pela primeira vez”, finalizou Marchetti., conhecido por títulos como “As Núpcias de Drácula” e “Verão Fantasma”, narrativas queer que acenam para o legado de diferentes gêneros, como o horror e a fantasia.
Cotação: ruim
Duração: 1h22
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Gbm5kbGxd7E

“COPAN”

Foto: Vitrine Filmes
Dirigido por Carine Wallauer, o documentário “Copan” mostra um dos maiores símbolos arquitetônicos de São Paulo. O filme foi gravado dentro do edifício projetado por Oscar Niemeyer, o longa acompanha a rotina de moradores e funcionários em meio a uma eleição pela administração do condomínio. Do lado de fora, o Brasil também vive outro embate: a disputa presidencial de 2022 entre Lula e Jair Bolsonaro. Entre corredores, janelas, apartamentos e assembleias, “Copan” transforma o prédio em um microcosmo das tensões políticas e sociais do país.
Carine Wallauer não se limita a registrar o prédio: a diretora observa as curvas, os vazios, os corredores, as frestas e os habitantes do Copan como partes de um organismo vivo. Na tela grande, a arquitetura do Copan ganha escala, textura e presença. A câmera revela tanto a imponência dos 32 andares quanto os pequenos gestos de quem vive e trabalha ali.
O documentário venceu a Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens do É Tudo Verdade 2025, maior festival de documentários da América Latina, sendo reconhecido pelo júri por sua ousadia formal, rigor estético, originalidade, precisão e delicadeza ao revelar conflitos contemporâneos. A eleição interna do condomínio, conduzida em paralelo à eleição presidencial de 2022, faz do filme um retrato sobre poder, democracia, convivência e disputa de narrativas. O longa chega aos cinemas em um momento político próximo àquele registrado pelas câmeras ao longo dos anos de filmagem: um período em que, como o atual, um Brasil polarizado politicamente voltava às urnas para decidir quem comandaria o país nos anos seguintes. Uma rachadura que reverberava, como hoje, nos mais diversos níveis de relações sociais, inclusive, dentro do próprio edifício, que também atravessava uma eleição acirrada para a escolha do síndico. Um reflexo que ainda se mostra muito atual diante da fragilidade democrática que se mantém no país. Em um único endereço, o documentário encontra um país inteiro em movimento.
Símbolo modernista, o edifício concebido por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966, no coração da Avenida Ipiranga, o Copan completa 60 anos em 2026. É o maior condomínio residencial da América Latina e funciona, no filme, como um microcosmo do Brasil contemporâneo. Do alto, suas curvas sinuosas contrastam com os múltiplos ângulos retos da paisagem de São Paulo. De frente, impressiona pelos 115 metros de altura, a maior estrutura de concreto armado do país. De dentro, revela a diversidade e as diferenças entre mais de 5 mil moradores.
Cotação: regular
Duração: 98 minutos
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=4SyXl2KFSDI

quinta-feira, maio 07, 2026

COLETIVO AUDIOVISUAL TV OVO COMPLETA 30 ANOS, MOSTRANDO QUE CINEMA É PARA TODOS

Texto: Homero Pivotto Jr
Foto: Oficina Olhares da Comunidade EMEF Adelmo Simas Genro / Nathália Arantes
O PENSAMENTO COMUM no meio audiovisual, de que ninguém faz cinema sozinho, tem suas razões para existir. A quantidade de atores envolvidos em uma produção é uma delas – são profissionais de diferentes áreas, da direção à maquinaria, passando por produção, câmera, áudio e tantos outros. Foi com essa ideia do fazer em conjunto que a TV OVO, coletivo audiovisual de Santa Maria, projetou-se por três décadas.
Iniciada como uma oficina de vídeo na periferia (Vila Caramelo), a entidade celebra mais um aniversário com inúmeras conquistas. Entre elas: ser ponto de cultura certificado pelo Ministério da Cultura (MinC) desde 2005; ter sido autora e colaborado com diversos tipos de produções – desde videoclipes, passando por curtas, documentários (seu carro-chefe) ou ficção, até um longa-metragem premiado –; servir de espaço contínuo na formação de adolescentes e jovens; e atuar como fomentadora do setor, principalmente, mas não apenas, na região central do Rio Grande do Sul. Porém, diferentemente de um filme, que registra cenas de um tempo que já se foi, a TV OVO joga os holofotes para o presente e segue em frente, com projetos em andamento no audiovisual, mas um em especial, que é a continuidade da obra do seu centro cultural: o Sobrado.
“Cada ação que a TV OVO faz, enquanto coletivo, que é como a gente trabalha, sempre busca melhorar o que está posto, e isso importa mais do que qualquer adversidade encontrada pelo caminho nesses 30 anos. Então, tem muita doação, muita falta de recurso, mas também não nos falta motivação para ir adiante, trabalhando com a comunidade”, pontua Marcos Borba, um dos fundadores do coletivo, que ingressou no grupo aos 16 ano. A data que marca a efeméride de 30 anos é 12 de maio. Nessa dia, às 15h, está agendada uma sessão especial na Câmara de Vereadores de Santa Maria em homenagem à TV OVO. Antes disso, em 8 de maio, ocorre o lançamento no YouTube do filme “Cartas de Felippe” (que busca recuperar a arte e a política do santa-mariense Felippe D’Oliveira, expoente da literatura do início do século XX), dirigido por Marcos Borba.
As atividades celebrativas estendem-se por todo 2026, com diferentes iniciativas. Estão na programação, por exemplo, exibições gratuitas e o lançamento no YouTube do documentário “Morada”, dirigido por Neli Mombelli (contemplado pelo Edital 002/2023 da Lei Paulo Gustavo da Secretaria de Cultura de Santa Maria) – obra que traz reflexões sobre pertencimento, direitos estudantis e as marcas que carregamos, e deixamos, nos lugares por onde passamos. Também está em processo de finalização a série “Rock do K7”, dirigida por Marcos Borba e Neli Mombelli, que conta a história de 10 veteranas bandas de Rock Gaúcho. Esse projeto, que une música e cinema, tem financiamento do Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul, Pró Cultura RS, Secretaria da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura e Governo Federal - Brasil: União e Reconstrução, bem como apoio da Locall e a Finish como produtora associada.
Durante o Festival de Gramado de 2025, a TV OVO recebeu uma das conquistas mais marcantes de sua trajetória e que também marca a história de Santa Maria: foi agraciada com o Kikito de Melhor Longa-metragem Gaúcho e de Júri Popular para “Quando a Gente Menina Cresce”, dirigido por Neli Mombelli, aprovado no edital SEDAC n° 01/2022 – FAC Filma RS – Financiamento Pró-cultura RS. O primeiro longa da TV OVO, que discute a primeira menstruação e acompanha um grupo de meninas que vive a transição da infância para adolescência em uma escola pública na periferia, também recebeu Menção Honrosa para o elenco feminino.
“Somos reconhecidos por nossos documentários de curta-metragem, sempre relacionados a temas sociais. Então, quando decidimos produzir um longa, foi um mergulho num formato diferente e novo para todos nós. O reconhecimento do filme pelos dois festivais mais antigos e tradicionais do país, que são o de Gramado e de Brasília, nos deu imensa alegria, já que esse tipo de janela é dificílima de acessar. E isso também aumenta a nossa responsabilidade, para que possamos seguir fazendo mais e cada vez melhor”, reflete Neli, que está na TV OVO desde 2009 e é a atual coordenadora geral.
Desde o início, na Vila Caramelo, quando gestada em meio ao movimento das rádios e TV’s comunitárias, a TV OVO pautou sua atuação cultural na educomunicação e na coletividade. Essa postura rendeu reconhecimento nacional por meio dos prêmios Escola Viva (2007), Selo Cultura Viva (2007), Ponto Mídia Livre (2010), Selo e Prêmio Cultura Viva (2011), Ponto de Memória (2013) e Culturas Populares (2019). Reforça, ainda, a relevância da entidade, o fato de ter se tornado Pontão de Cultura, em 2009. A certificação possibilitou parcerias, acesso a recursos financeiros e mais visibilidade para projetos.
Lar do cinema no casarão de 110 anos
A TV OVO fica em uma área anexa ao casarão histórico (construído em 1916) na esquina das ruas Floriano Peixoto e Ernesto Beck. O espaço, adquirido pelo jornalista Marcelo Canellas e com escritura doada à TV em 2016 – como presente pelas duas décadas de serviços prestados – deve tornar-se um complexo cultural. A proposta em andamento prevê transformar o local e o galpão no mesmo terreno em um centro voltado às artes, com ênfase para o audiovisual.
A primeira fase da restauração do Sobrado Centro Cultural captou recursos a partir da Lei de Incentivo à Cultura do Estado, o que permitiu fazer as primeiras intervenções na infraestrutura do casarão. No momento, parcerias com o poder público, por meio de emendas parlamentares, têm viabilizado a acessibilidade do prédio, com a construção de rampas de acesso, finalização de escadas, colocação de guarda-corpo e instalação de uma plataforma elevatória. As emendas foram direcionadas pelo vereador santa-mariense Werner Rempel e pelo deputado estadual Valdeci Oliveira. A partir dos avanços na obra proporcionados por esses recursos, será possível realizar as primeiras atividades abertas à comunidade no local.
“Temos nos dedicado a este projeto desde 2012. Ele é complexo e necessita de muitos recursos e de muitos profissionais de outras áreas, por se tratar de uma obra e de um bem tombado. Acreditamos no papel dele para dinamizar a circulação de bens culturais na cidade. E, também, por ser mais um espaço agregador de ideias e de ações que tenham a nossa identidade, bem como a formação de jovens no centro dos debates e das atividades a serem oferecidas”, pontua Denise Copetti, que integra a entidade desde 2007 e atua, sobretudo, na produção executiva.
Ainda há muito a ser feito para se chegar na execução final do projeto. Para isso, a TV OVO tem inscrito projetos em editais e buscado viabilizar a obra pela Lei Rouanet. A primeira etapa das melhorias estruturais, aprovada pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do Rio do Grande do Sul, está concluída. Essa parte contemplou reforma interna do casarão. Interessados em contribuir com a captação de recursos podem entrar em contato pelo e-mail sobrado@tvovo.org.
O projeto do Sobrado Centro Cultural prevê, no primeiro andar, um café para sediar a socialização de saberes, debates e mostras durante o happy hour. No mesmo piso, deve ser montada a Biblioteca do Audiovisual Sérgio de Assis Brasil (importante nome do segmento na região centro do Rio Grande do Sul), com acervo de livros e filmes de acesso gratuito para a população. Ainda no primeiro nível da edificação, o objetivo é alocar o museu da imagem e do som, com materiais brutos feitos pela TV OVO ao longo dos anos – e que é constantemente atualizado. Já no segundo andar, a ideia é uma sala de cinema com programação contínua voltada para lançamentos nacionais.
Foto: Fachada do Sobrado Centro Cultural/ Alice Pozzobon
O Sobrado Centro Cultural pretende fomentar o estudo, a discussão e a produção audiovisual também no prédio anexo. Nele, além de o segundo andar abrigar a futura sede da TV OVO, o terceiro conta com área para oficinas, workshops e coworking. No primeiro piso, a intenção é fazer um estúdio para produções de cinema e TV, que também pode ser utilizado para espetáculos, shows e saraus. E, no subsolo, outros dois estúdios menores estão nos planos: um para pequenas produções audiovisuais e outro voltado para a produção sonora.
História que daria filme
A TV OVO tem uma trajetória que renderia um bom roteiro, principalmente pelo lado social. Em 30 anos, desenvolveu inúmeros projetos e oficinas em comunidades periféricas e escolas públicas. Foram realizadas ações de formação, cineclube e núcleos de vídeo comunitário nos projetos Ponto de Cultura Espelho da Comunidade, em Santa Maria, e Pontão de Cultura FOCU em Pontos de Cultura do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Há, ainda, o projeto Por Onde Passa a Memória da Cidade que, desde 2008, recupera a história de pessoas, ruas, bairros e distritos de Santa Maria.
Merece destaque, ainda, o trabalho junto à Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss de Santa Maria (AVTSM), no qual a TV OVO colaborou na organização de espaços de discussões sobre a tragédia e registrou o desenrolar da busca por justiça. De parte desse processo, foi produzido o documentário “Depois Daquele Dia” (2018), dirigido por Luciane Treulieb, licenciado para o Canal Brasil em janeiro de 2023, e a série “Boate Kiss: a tragédia de Santa Maria “ (2023), com direção de Marcelo Canellas, para o Globoplay. Outro trabalho de destaque é a série documental “Nova Santa Marta”, com três episódios (Cidade de Lona, Cidade de Madeira e Cidade de Concreto), com direção de Paulo Tavares e Alan Orlando, que resgatam os 30 anos de uma das maiores ocupações urbanas da América Latina (contemplada pelo financiamento do edital 002/2023 da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Cultura de Santa Maria).
O tempo também permitiu a TV OVO construir pontes por meio de parcerias com TV Brasil, Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Canal Futura e TVE-RS. Há mais de uma década, a TV OVO atua em projetos pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) de Santa Maria voltados para a produção de documentários a respeito da memória local. Já são mais de 40 produções sobre culturas populares, saberes tradicionais, histórias de ruas, bairros, distritos e toda a sua gente. O currículo da TV OVO contempla ainda oficinas de realização audiovisual em escolas municipais, colóquios e workshops para ampliar o conhecimento e fortalecer a cadeia audiovisual.

“ERA UMA VEZ MINHA MÃE” (Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan)

Foto: California Filmes
“Era Uma Vez Minha Mãe” (Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan), com direção de Ken Scott, conhecido pelos sucessos “Meus 533 Filhos” e “De Repente Pai”, é um excelente filme de memórias. O longa é baseado na autobiografia do advogado francês Roland Perez, que nasceu com uma deficiência em uma das pernas que o impedia de andar. A obra faz uma homenagem à sua mãe, a judia marroquina Esther, que fez de tudo para garantir que ele tivesse um futuro brilhante mesmo diante das adversidades.
O filme tem seu início na Paris de 1963, quando Roland nasce, filho mais novo do casal de imigrantes Maklouf (Lionel Dray) e Esther (Leïla Bekhti). Ele nasce com o pé direito torto, e devido às condições da época, os médicos diagnosticaram que ele nunca andaria e nunca teria uma vida normal. Porém, a mãe, extremamente religiosa e apegada ao caçula, passou anos se dedicando para que o garoto pudesse andar, inclusive apelando para diversas orações, acreditando que poderia ocorrer um milagre. “Era Uma Vez Minha Mãe” atravessa décadas na vida de mãe e filho, relatando as conquistas e dificuldades do menino, a partir de uma visão íntima e acolhedora.
O filme apresenta um trabalho meticuloso de reconstituição de época, o que garantiu ao filme uma segunda indicação ao César (o Oscar francês), na categoria de direção de arte. A atriz Leïla Bekhti, conhecida por participações em filmes como “O Profeta” e “A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília”, foi indicada por sua performance ao César de melhor atriz. Roland é interpretado por vários atores, que o representam nas diferentes fases de sua vida, com destaque para Jonathan Cohen, de “Amanda” e “Enorme”, que o vive em sua idade adulta.
O elenco ainda tem Joséphine Japy, Lionel Dray, Jeanne Balibar e o jovem Milo Machado-Graner, de “Anatomia de uma Queda”. A cantora Sylvie Vartan, figura recorrente na vida de Roland, também faz uma participação especial, interpretando a si mesma. “Era Uma Vez Minha Mãe” é um filmaço.
Cotação: excelente
Duração: 1h42min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=CbY0YbD2BxM

“ECLIPSE”

Foto: Mercúrio Produções
“Eclipse”, filme nacional é dirigido por Djin Sganzerla, filha do cineasta Rogério Sganzerla (1946-2004), e nasceu depois dela tomar conhecimento de um caso real: o de uma mulher que descobriu que o próprio marido a difamava e ameaçava de morte em um fórum na internet. A partir desse ponto, Djin imaginou o encontro entre uma astrônoma grávida e sua meia-irmã de origem indígena — um encontro que destrava memórias reprimidas e expõe camadas ocultas de relações abusivas, no passado e no presente. Do choque entre ciência e ancestralidade, emerge uma jornada marcada por intuição, investigação e transformação.
Na trama, a própria Djin interpreta a astrônoma Cleo, é casada com Tony (Sergio Guizé), e fica sabendo da existência de uma meia-irmã, Nalu (Lian Gaia), de origem indígena e especialista em computação, e fruto de uma relação extraconjugal de seu falecido pai. Depois do choque inicial, as duas começam a conviver.
E enquanto espera os meses para dar a luz, Cleo começa a desconfiar de ações do seu marido, e pede ajuda a Nalu para investigá-lo nas profundezas da deep web, acabando por descobrir segredos terríveis do parceiro.
Protagonizado pela própria diretora, atriz com mais de duas décadas de carreira, o filme reúne ainda nomes conhecidos do público, como Sergio Guizé, que recentemente estrelou a novela “Êta Mundo Melhor!”, e Lian Gaia, da série “DOM” e da novela “Vai na Fé”.
“Eclipse” conta também com presenças fundamentais do cinema brasileiro, como Luís Melo, Selma Egrei, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce e a icônica Helena Ignez, mãe da diretora e uma das artistas mais revolucionárias do país.
“Ao tratar da relação entre mulheres e do convívio entre pessoas de diferentes origens, o filme ‘Eclipse’ reflete questões essenciais para o Brasil de hoje”, disse Marina Moreira Gama, superintendente da Área de Relacionamento, Marketing e Cultura do BNDES, uma das patrocinadoras do projeto.
Cotação: ótimo
Duração: 1h50
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=fSLoBKqtOIw

“TOY STORY 5”

Foto: Disney Iniciada em 1995, a saga em que os brinquedos ganham vida quando os humanos não estão olhando, ganha um novo capítulo. Em “Toy...