quarta-feira, junho 10, 2026

“DIA D” (Disclosure Day)

Fotos: Universal Pictures
Quando foi anunciado o novo filme de Steven Spielberg, eu pensei ansioso de que ele iria revisitar a II Guerra, como no genial “O Resgate do Soldado Ryan”, que começa exatamente no dia que marcou a invasão aliada à Europa, pelos aliados, em 6 de agosto de 1944. Porém eu me equivoquei. Porém não é por este motivo que me decepcionei com o longa-metragem.
“Dia D” (Disclosure Day) ou o Dia da Descoberta, vemos o especialista em informática David Kellmer, vivido por Josh O’Connor (de Rivais), fugindo de homens que não sabemos se são de alguma agência governamental ou privada, pois roubou alguns documentos, sob ordens de Hugo (Colman Domingo). Junto com Kellner, na longa escapada, está sua namorada, a ex-noviça Jane (Eve Hewson).
Ao mesmo tempo em que Kellner e Jane tentam se esconder de agentes comandados por Noah (Colin Firth), surge a personagem de Emily Blunt, Margaret Fairchild, garota do tempo de uma pequena emissora de TV de Kansas City, que do dia para a noite recebe poderes sobrenaturais, como falar outras línguas e poder ler o pensamento de outras pessoas.
Os dois, David e Margaret acabam se unindo em meio a um caos que acontece nos Estados Unidos, com a população levando de assalto produtos de minimercados, como se estivesse esperando uma guerra ou uma invasão extraterrestre. E o roteiro de David Koepp baseado em uma história do próprio Spielberg. Os dois já haviam trabalhado juntos em "Jurassic Park" (1993) e "Guerra dos mundos" (2005).
Consegue esconder por boa parte do filme o motivo da fuga de David, que papéis e HDs são aqueles que o personagem carrega em uma mochila – e por que Noah o persegue com tanta vontade. Colin Firth abusou demais e transformou seu vilão em um personagem caricato.
As fugas são estilosas, espetaculares, apesar de inverossímeis ao extremo. A cena do trem é tensa, mas abusa dos malabarismos dos protagonistas Daniel e Margaret. Porém aí, Spielberg revisita o momento em que se viciou em cinema, reproduzindo o momento do acidente que ele relembra em “Os Fabelmans” (2022). Quando criança, o diretor foi levado ao cinema para assistir “O Maior Espetáculo da Terra" (1952), dirigido por Cecil B. DeMille, e onde o clímax é a famosa colisão entre duas seções do trem do circo.
Mas voltando a “Dia D”, o diretor ainda traz reminiscências de dois de seus clássicos, "Contatos imediatos do terceiro grau" (1977) e "E.T. O extraterrestre" (1982). Para mim, Spielberg segue uma crença de que existem realmente extraterrestres e a existência dos monstrinhos verdes são escondidas por organizações governamentais, ou no caso de seu novo filme, de uma agência privada.
E sei lá, mas se os alienígenas do novo filme fossem mais bélicos, até poderia comprar a ideia. Afinal, a humanidade não deu certo, e eles podiam dar um pulinho na Terra para fazer o trabalho do meteoro. Mas ET bonzinho e a população mundial parada, boquiaberta, olhando em seus celulares a revelação da existência desses seres, é pedir demais.
Cotação: regular
Duração: 2h17min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=cULQTp0ImEM

“CRIADAS”

Fotos: Vitrine Filmes
“Criadas” é o primeiro filme de ficção dirigido por Carol Rodrigues, misturando drama psicológico, realismo fantástico e horror subjetivo. A trama acompanha o reencontro entre as primas Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), mulheres negras que cresceram juntas na mesma casa, mas ocuparam lugares radicalmente diferentes dentro dela. A mãe de Sandra trabalhou no local como empregada residente ali no passado, enquanto que os pais de Mariana eram os donos da casa.
O reencontro das duas traz à tona memórias boas e outras negativas, pesadas. Sandra é uma mulher negra, de pele escura, acima do peso e sofre para poder provar suas qualidades profissionais – ela é engenheira em uma grande construtora, envolta em um grande projeto. Já Mariana tem a pele clara, magra e parece ter passado incólume pelos problemas raciais.
Conforme Carol Rodrigues, “o filme nasce da tentativa de compreender as contradições dentro da própria família e das marcas deixadas pelo trabalho doméstico nas dinâmicas afetivas brasileiras.”
“A casa guarda aquilo que as personagens tentaram esquecer. Era importante para mim pensar o espaço como uma presença viva, que observa, cobra e devolve memórias”, acrescenta a diretora.
“Criadas” fala de amor, ressentimento, ancestralidade e permanência. É um filme sobre mulheres negras tentando reorganizar suas próprias narrativas depois de terem sido definidas, durante muito tempo, pelo olhar dos outros”, completa Rodrigues.
As protagonistas do longa também destacam a dimensão emocional do encontro entre suas personagens. Mawusi Tulani define Sandra como uma mulher atravessada por sonhos de ascensão e pelas marcas silenciosas do racismo estrutural. “Sandra é uma mulher preta, gorda, retinta. Assim como acontece em muitas famílias negras brasileiras, ela cresceu acreditando que os estudos seriam o caminho para transformar sua vida e conquistar ascensão social.” e completa “Sandra é movida pela esperança e pela ambição de ocupar outros espaços, mas ao revisitar a casa de sua prima Mariana, acaba também revisitando o próprio passado, suas memórias, dores e feridas ainda abertas. É nesse processo que começa a compreender as questões que moldaram sua trajetória e sua existência”.
Para Mawusi, o filme utiliza a intimidade das personagens para discutir estruturas sociais mais amplas. “Criadas transforma experiências privadas em reflexão coletiva. O filme fala sobre racismo, solidão, colorismo e sobre aquilo que muitas mulheres negras carregam sem conseguir nomear completamente”, afirma.
Já a atriz Ana Flavia Cavalcanti conta um pouco sobre sua experiência com a personagem: “Ela é uma mulher distante de mim, eu nasci em uma família bastante miscigenada, filha de uma mulher negra e um homem afro-indígena todos com raízes no Nordeste e em Minas Gerais. Nasci em uma favela muito perigosa nos anos 80, em Diadema”, relembra.
“Mariana, não. Ela é uma mulher que nasce em um contexto social muito próspero. O pai é branco e rico e a mãe preta que para conseguir pertencer àquele mundo embranquece à medida que os anos passam. Mariana cresce com muitas estruturas, mas sem nenhum letramento racial e por isso sofre a falta de pertencimento.” Ela finaliza: “o filme nos faz refletir sobre as estruturas que a escravidão coordenou durante tantos séculos e seus desdobramentos.”
Cotação: bom
Duração: 1h45
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=VbFQsIRyePc

terça-feira, junho 02, 2026

“NATAL AMARGO” (Amarga Navidad)

Foto: Warner Bros. Pictures
“Natal Amargo” (Amarga Navidad), é o seu 24º longa-metragem do espanhol de 76 anos Pedro Almodóvar, e é um filme dentro do filme. E onde o consagrado diretor expõe mais uma vez suas feridas.
No filme, seguimos a história de dois cineastas obcecados em trabalhar, e em dois tempos distintos, 2004 e 2026: Elsa (Bárbara Lennie) e Raúl (Leonardo Sbaraglia), uma espécie de um alter ego de Almodóvar. Ela acabou indo para a área dos comerciais publicitários, depois de ter lançado um filme que fracassou, mas virou cult. E sofre com o luto da perda da mãe e vive com crises de enxaqueca. Além disso, namora Bonifácio (Patrick Criado), que trabalha como bombeiro e nas horas vagas, atua como stripper numa boate e onde ela o conheceu.
Já Raúl é um diretor veterano de sucesso, mas em bloqueio criativo – em determinado momento, um dos personagens chega a sugerir que ele aceite as ofertas de filmar para a Netflix, mas seu ego o impede. Raúl passa os dias sentado em seu escritório, tentando escrever um roteiro. Mas deixa de lado sua vida pessoal e praticamente ignora a presença de seu namorado, Santi (Quim Gutiérrez).
Então, de repente, o roteiro, que vai pulando entre as duas décadas diferentes, deixa claro que a vida de Elsa é simplesmente fruto da imaginação de Raúl, baseado em histórias de sua assessora, Mônica (Aitana Sánchez-Gijón).
Mas é muito interessante como Almodóvar cria a ponte entre ficção e realidade. Se o espectador piscar, pode ficar boiando, tantas são as mudanças de tempo. Porém, fica claro de como Almodóvar reflete sobre sua própria carreira e o medo de envelhecer e perder a criatividade. Só que o espanhol mostra que ainda tem muita lenha para queimar.
E para encerrar, Almodóvar se mostra impecável em seu tradicional jogo de cores fortes, iluminação e um cuidado estético vigoroso.
Cotação: ótimo
Duração: 111 minutos
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=1JfX-T1Zvig

domingo, maio 31, 2026

“EU NÃO TE OUÇO”

Foto: Amaia Filmes
“Eu Não Te Ouço”, dirigido por Caco Ciocler, é um road-movie brasileiro e inesperado, cercado de nonsense e humor. O longa-metragem é baseado em fatos reais, pegando como personagem aquele patriota que em 2023, durante os protestos golpistas, se segurou no para-brisas de um caminhão. O bolsonarista viajou durante várias horas, percorrendo 15 quilômetros na BR-232 em Caruaru (PE).
Em “Eu Não Te Ouço”, a ideia é imaginar o que as duas pessoas que protagonizaram o evento estavam pensando. Os dois, motorista e patriota são interpretados pelo ator Márcio Vito. O filme levanta questionamentos sobre o momento político que a sociedade brasileira vive.
De dentro da cabine, o motorista tenta uma conversa impossível, seja pelo barulho do vento, seja pelo vidro que separava aqueles dois mundos. “O filme é também sobre esse vidro. Sobre o país que, três anos depois, segue tentando uma conversa consigo mesmo que soa cada vez mais impossível. Não mais pelo dito — a oposição dos discursos — e sim pelo que não se escuta”, explicou Ciocler.
Cotação: bom
Duração: 1h12
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=esfeMSQjpv8

“FORA DE CONTROLE” (Dis-moi juste que tu m'aimes)

Foto: California Filmes
“Fora de Controle” (Dis-moi juste que tu m'aimes), com direção de Anne Le Ny, parece ser aquelas comédias de erro, quando uma esposa fica enciumada com o surgimento de uma antiga paixão de seu marido, e acaba se envolvendo em um relacionamento extraconjugal. Mas no final acaba sendo uma obra que pega mais fundo, até lembrando um pouco “Atração Fatal”, de 1987.
Na trama, Marie (Élodie Bouchez) é casada há 15 anos com Julien (Omar Sy). O casal tem uma filha adolescente adorável, e vive em harmonia. Ele conselheiro na escola local, e ela, executiva de uma empresa.
Só que a relação é abalada quando a ex-namorada de infância de Julien, Anaëlle (Vanessa Paradis), volta para a cidade e abre um bar, disposta a ficar para sempre. Marie se mostra ameaçada com a presença de Anaëlle e cega de ciúmes, começa a ter um romance com o seu chefe, Thomas (José García).
Só que Marie não sabe que está sendo manipulada por Thomas, que no começo parece o amante perfeito, compreensivo, sem imaginar que ele inventa situações entre Julien e Anaëlle. E aos poucos, Thomas vai se mostrando uma pessoa perigosa e abusiva, e insistindo para que Marie abandone a família e fique com ele.
Filmado na região francesa da Bretanha, o filme foi descrito pela revista Screen Daily como “uma espécie de Atração Fatal com inversão de gênero.
Dirigido por Anne Le Ny, parceira de Omar desde sua revelação como ator, “Fora de Controle” retoma o tema da infidelidade que a diretora já havia explorado em seu longa anterior, “Le Torrent”, que trazia no elenco José Garcia, que já estrelou três filmes ao lado de Sy.
Cotação: bom
Duração: 1h51
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5Db8h1T4ke8

“OBSESSÃO” (Obsession)

Foto: Universal
Em “Obsessão”, direção de Curry Barker, temos um dos grandes filmes de terror dos últimos anos. Na trama, o jovem Bear (Michael Johnston), que trabalha com os amigos Ian e Sarah, na loja de instrumentos musicais do pai de Sarah, é apaixonado secretamente pela amiga Nikki (Inde Navarrete, simplesmente sensacional), mas quer se declarar para a garota.
Então certo dia, frustrado após achar o seu gato de estimação morto, depois de ingerir acidentalmente oxicodona, Bear entra em um bazar, onde compra um presente para Nikki, um bastão chamado "Salgueiro dos Desejos", um brinquedo curioso que promete realizar um desejo por pessoa quando quebrado.
Naquele mesmo dia, Bear dá carona para a garota, que pergunta se ele gosta dela, mas ele nega e desiste de dar o presente para Nikki. Porém, Bear decide usar o bastão, desejando que Nikki o ame mais do que qualquer pessoa no mundo.
Imediatamente Nikki passa a amar profundamente Bear, e os dois passam a namorar. Porém, o jovem começa a perceber que o preço pelo pedido é mais caro do que possa se imaginar, já que a garota fica obsessiva por ele, demonstrando muito ciúmes dele e tendo um desejo de posse tremendo.
As coisas, enfim, saem do controle, e Nikki passa a ficar violenta com quem se aproxima de Bear, e até mesmo se mutilando, quando se sente rejeitada.
O filme é realmente assustador, com cenas violentas e inesperadas – uma delas sendo um dos personagens sendo assassinado com tijoladas no rosto.
E se o espectador pergunta se o bastão atendia apenas um desejo por pessoa, por que Bear não comprou outro e fez novo pedido? Simples, porque cada pessoa só tinha direito a um desejo, não importando quantos bastões adquirisse. Bela sacada.
Cotação: ótimo
Duração: 1h49
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=3z9AHxBH600

“O BOLO DO PRESIDENTE” (The President’s Cake)

Foto: Kajá Filmes
“O Bolo do Presidente”, dirigido pelo iraquiano Hasan Hadi, mostra os absurdos do ditador Saddam Hussein (1937-2006), que governou o Iraque com mão de ferro entre 1979 e 2003.
O filme é ambientado no país do Oriente Médio nos anos 1990, durante o período de sanções econômicas imposta pelos Estados Unidos após a invasão do Kuwait no que ficou conhecida como a Guerra do Golfo. A população vivia, então, empobrecida, desemprego desenfreado, fome e mais uma série de problemas. Mesmo assim, Hussein não perdia sua empáfia e exigia devoção total à sua pessoa.
Perto de seu aniversário, exigiu que toda a população comemorasse o seu aniversário. E isso vai afetar a pequena Lamia, uma garota de apenas nove anos criada pela avó, Bibi. Em sala de aula, todos os dias, as crianças deveriam fazer orações e provar sua fidelidade ao ditador.
E à véspera do aniversário de Saddam, o professor exige que alguns alunos levem para a escola homenagens para o ditador. E para Lamia, o professor exige que ela prepare um bolo cremoso em homenagem ao aniversário do presidente. Descumprir a exigência custaria uma severa punição para ela e a avó.
Então, e m meio à escassez extrema de alimentos e ao clima de medo instaurado no país, Lamia embarca em uma jornada em busca de ovos, farinha e açúcar. Ao lado da avó Bibi, do amigo Saeed e do inseparável galo Hindi, ela atravessa mercados, estradas e postos policiais, em uma narrativa que mistura delicadeza e humor melancólico.
Filmado inteiramente no Iraque e com elenco majoritariamente formado por atores não profissionais, “O Bolo do Presidente” aposta em um olhar íntimo e humanizado sobre um período histórico marcado pela violência e pela privação.
“Espero que o filme possa servir como um documento visual daquela era do país. Também tentei adicionar camadas ao filme através das locações. Gosto que os lugares façam parte da história, que provoquem certo sentimento ou transmitam um ponto específico sobre a narrativa ou sobre o mundo em que vivemos.”, disse Hasan Hadi.
O roteiro é assinado por Hasan Hadi ao lado do vencedor do Oscar Eric Roth (“Forrest Gump”, “Assassinos da Lua das Flores”). Entre os produtores executivos estão nomes como Marielle Heller e Chris Columbus. O filme venceu ainda a prestigiada Caméra d’Or no Festival de Cannes 2025, prêmio de Melhor Estreia em Longa-Metragem, além de receber o Prêmio do Público da Quinzena dos Realizadores.
Cotação: ótimo
Duração: 1h45
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=gKDyBjDBl4s

“DIA D” (Disclosure Day)

Fotos: Universal Pictures Quando foi anunciado o novo filme de Steven Spielberg, eu pensei ansioso de que ele iria revisitar a II Guerra, c...