quarta-feira, abril 29, 2026

“SALA-ESCURA - CINEMA POR CHICO IZIDRO” COMPLETA 20 ANOS

Então é isso, o “Sala-Escura, Cinema por Chico Izidro”, acaba de completar 20 anos – sim, duas décadas e mais de 2.500 análises de filmes. O projeto surgiu numa noite de sábado de 2006, como forma de poder falar de todos os filmes que eu assistia semanalmente, mas não encontrava espaço para todos nos veículos em que colaborava – a revista “Carta Capilé”, de São Leopoldo, e o programa “Cena de Cinema”, da Ipanema FM.
A partir de 2009, o “Sala-Escura” passou a dividir espaço com o blog “Cine CP”, criado por mim, e que contava ainda com Adriana Androvandi e Marcos Santuário. Mas desde a minha demissão do Correio do Povo em 2024, o “Sala-Escura, Cinema por Chico Izidro” voltou a ser meu espaço exclusivo para a publicação das críticas e resenhas.

“ZICO - O SAMURAI DE QUINTINO”

Foto: Vudoo Filmes
“Zico, o Samurai de Quintino”, dirigido por João Wainer, é um excepcional documentário, que homenageia plenamente o legado do craque Arthur Antunes Coimbra, o Zico, para o futebol brasileiro e também para o desenvolvimento do esporte no Japão.
O documentário mergulha na trajetória do craque, ídolo do Flamengo, do Kashima Antlers e com três participações em Copas do Mundo defendendo a Seleção Brasileira. O trabalho apresenta imagens raras, desde a infância até a fase adulta, registros de arquivo e bastidores inéditos. A produção mostra gols antológicos e conquistas marcantes, episódios pouco conhecidos da carreira, os desafios enfrentados ao decidir jogar no Japão e a construção de um legado e inspiração que ultrapassa gerações – a destacar os primeiros passos de Zico no futebol japonês no começo dos anos 1990, quando a estrutura do esporte na Terra do Sol Nascente era praticamente nula.
O filme traz depoimentos exclusivos e conversas com personagens-chave, ex-parceiros e fãs que se tornaram ídolos, como Júnior Maestro, Carpegiani, Carlos Alberto Parreira, Ronaldo Fenômeno, o radialista José Carlos Araújo, entre outros. Além deles, os três filhos de Zico e sua esposa, Sandra, visitam o vasto acervo pessoal do Galinho de Quintino. Ao equilibrar emoção, contexto histórico e análise esportiva, o filme dialoga tanto com quem acompanhou de perto a trajetória do camisa 10 quanto com novas gerações que continuam a descobrir a dimensão de sua influência dentro e fora dos gramados.
“Mais do que as conquistas e glórias do Zico, venho aprendendo com ele lições que vão além do futebol, como humildade, respeito e gentileza. Posso garantir que toda a equipe trabalhou com muita dedicação e afeto para construir um filme emocionante e repleto de informação”, disse o diretor João Wainer.
O produtor André Wainer complementou, lembrando que a proposta do projeto é colocar Zico no lugar e na dimensão que ele merece. “Trabalhamos não apenas para trazer elementos novos, mas para usar esses elementos na construção de uma narrativa inédita sobre o Galinho. Gostamos de dizer que este é um filme de não ficção, apesar de muitas jogadas do Zico parecerem fora da realidade”, destacou o produtor.
As filmagens tiveram início em 2023, quando Zico completou 70 anos, e passaram por locais emblemáticos como a casa do jogador em Quintino, ruas do Rio de Janeiro e um set especialmente montado para receber convidados. O projeto também percorreu o Japão, país onde ele se tornou um pioneiro e desenvolvedor do futebol, do time operário do Sumitomo à seleção, de quem foi técnico.
A produção reúne ainda um vasto acervo pessoal, com dezenas de fitas VHS, filmes Super-8 e objetos históricos, entre eles, a camisa 10 usada na final do Mundial de 1981 e um caderno com anotações detalhadas de gols ao longo da carreira.
Cotação: ótimo
Duração: 2h
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Mwt21FirOjA

“O DIABO VESTE PRADA 2” (The Devil Wears Prada 2)

Foto: 20th Century Studios
“O Diabo Veste Prada 2” (The Devil Wears Prada 2), chega exatamente 20 anos depois do primeiro filme, com David Frankel novamente na direção, e trazendo os mesmos protagonistas, Miranda Prestley (Meryl Streep), Andy Sachs (Anne Hathaway), Emily (Emily Blunt) e Nigel (Stanley Tucci), mas agora tendo as adições de Lucy Liu, Kenneth Branagh, Simone Ashley e Lady Gaga.
A primeira parte mostrava a recém formada Andy tendo de conviver com uma chefe abusiva, Miranda, na prestigiada revista de moda nova-iorquina Runway, baseada na real Vogue. Obra baseada no livro de mesmo nome escrito por Lauren Weisberger.
Agora, duas depois, Andy é uma jornalista conceituada e premiada, que ao receber mais um prêmio, descobre que foi demitida de seu jornal, assim como todos os colegas. Vivendo num apartamento precário em Nova Iorque, é convidada pelo dono da Runway, por Irv Ravitz (Tibor Feldman), a assumir um cargo de chefia na revista, para apagar uma crise provocada pela editora-chefe Miranda Priestley.
Ela volta para a publicação, verifica que o mundo mudou muito nestes 20 anos, mas Miranda segue praticamente sendo a quase mesmo chefe carrasca, um pouco mais contida, para evitar processos – nisto o roteiro, escrito por Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger acerta -, pois agora assédio moral é crime grave.
Então, Andy passa a tentar ver seu trabalho reconhecido e prestigiado por Miranda, que faz de conta que não a conhecia...e o personagem de Anne Hathaway (atriz que parece não ter envelhecido um dia), nem parece ter vinte anos de uma carreira bem sucedida, agindo como uma mulher insegura, enquanto procura validação por suas matérias e encontra um par romântico totalmente sem química no personagem Peter (Patrick Brammall). E não faz nenhum sentido Andy se esforçar além da conta para tentar manter o emprego de Miranda, uma personagem escrota, maligna, que só pensa em seus interesses, não se importando com as pessoas ao seu redor.
Porém, outro acerto do roteiro é em tratar da crise em que passa o jornalismo, com as publicações impressas sendo extintas, com o predomínio do material online, as demissões frequentes dos jornalistas, que perdem espaço cada vez maior para influencers, a superficialidade nas matérias e a cada vez maior influência de anunciantes no que deve ou não ser publicado. No mais, o filme é uma avalanche de personagens vazios, preocupados com vestidos, sapatos e bolsas.
“O Diabo Veste Prada 2” acaba sendo cansativo, com personagens caricatos – tem até o gordinho que sofre bullying de uma colega, a melhor amiga conselheira, o namorado sem noção e burro de Emily (Emily Blunt), e a bilionária que surge do nada para salvar o dia.
Podem me chamar de antipático, mas não consigo ter empatia por nenhum dos dois filmes, nem pelos personagens, todos me parecendo vazios.
Cotação: ruim
Duração: 1h58
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=r3_gZDsy1iQ

terça-feira, abril 21, 2026

“MICHAEL”

Foto: Universal Pictures.
Dirigido por Antoine Fuqua, “Michael” pretende trazer uma cinebiografia de um dos maiores artistas da história, o cantor Michael Jackson (1958-2009). Porém, com produção da família do astro, a trama transforma a obra em longa-metragem quase chapa-branca, ou seja, evita entrar mais fundo na conturbada história do criador de “Thriller”, o disco mais vendido da história com mais de 100 milhões de cópias.
Praticamente toda a família de Michael está envolvida na história, inclusive um dos sobrinhos do astro, Jaafar Jackson, interpreta o cantor. E aqui um fato evidente: o garoto merece concorrer ao Oscar por sua interpretação convincente. O diretor é o competente Antoine Fuqua, conhecido por dirigir “Dia de Treinamento” (2001), que rendeu um Oscar de melhor ator para Denzel Washington, a quem dirigiu na trilogia “O Proteror”.
“Michael” conta a história de Michael Jackson desde o começo da carreira em Gary, Indiana, onde o astro era severamente cobrado pelo pai, Joe Jackson, interpretado por Colman Domingo (Fear of The Walking Dead), uma pessoa tirânica e que tentou, de forma invejosa, deter o sucesso individual do filho. O filme segue com o crescente sucesso do garoto, que antes dos 20 anos, já era um astro mundial, à frente do grupo Jackson 5, formado ao lado dos irmãos.
O filme mostra que Michael Jackson era uma pessoa que se negou a crescer, assim como Peter Pan, livro que acompanha o astro, que vivia cercado de animais e de ajudar crianças. Porém, o longa-metragem evita tocar em assuntos polêmicos, inclusive passa rapidamente na questão de o cantor sofrer de vitiligo, de ser viciado em cirurgias plásticas e das acusações de pedofilia, e do vício em remédios. Além disso, “Michael” se mostra ansioso e pula eventos cronológicos, como por exemplo, focar no disco “Off the Wall” como se fosse o primeiro solo dele, sendo que já havia lançado vários discos antes sem contar com a participação dos irmãos.
Porém, acerta na reconstituição de “Thriller” (1982), disco que é um marco da música mundial, com hits como "Beat It", "Billy Jean", e "Thriller", mas esquece de citar as importantes participações de Eddie Van Hálen (1955–2020) e Vincent Price (1911-1993) na construção da obra.
O filme é cuidadoso em mostrar as feituras das coreografias, as filmagens dos videoclipes de "Beat It" e "Thriller", e a pressão de sua gravadora, a CBS, para que os trabalhos passassem a ser veiculados pela emergente MTV, que se negava a colocar no ar o trabalho de artistas negros – Michael Jackson quebraria esta barreira na primeira metade dos anos 1980.
Quem viveu nos anos 1980 se lembra da febre que era Michael Jackson, mesmo quem não curtia seu trabalho, sabia de sua importância. Por isso, outro erro do filme é esquecer do fenômeno que foi “We Are The World”, a música e videoclipe para arrecadar fundos para a fome no continente africano. Simplesmente “Michael” não dispensa uma simples menção, uma frase ao evento, liderado pelo astro pop.
Porém, perde muito tempo mostrando shows de Michael, sua fixação pelos animais que criava e o conflito com o pai, numa interpretação caricata de Colman Domingo, que geralmente entrega um ótimo trabalho. Além dele, o filme tem Nia Long como a mãe Katherine Jackson, Jessica Sula como a irmã LaToya e Miles Teller como o empresário John Branca. O estreante Juliano Valdi vive Michael na infância.
"Michael" falha em retratar um dos maiores astros da história, morto precocemente aos 50 anos, com medo de macular sua trajetória incrível. A música dele supera qualquer problema que ele poderia apresentar. O filme ainda mostra apenas um recorte de 30 anos de sua vida, parando em 1988. Nos anos 1990, o astro começaria a perder popularidade, protagonizando incidentes patéticos com os casamentos, um deles com a filha de Elvis Presley, Lisa Marie Presley, e tendo seus dois filhos, gerados por inseminação artificial. Mas sua importância para a cultura pop é inegável.
Cotação: regular
Duração: 2h08
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=HZZgZUU9XIc

quarta-feira, abril 15, 2026

“A MALDIÇÃO DA MÚMIA” (Lee Cronin’s The Mummy)

Foto: Warner Bros.
“A Maldição da Múmia” ((Lee Cronin’s The Mummy), dirigido por Lee Cronin, é mais um filme da franquia sobrenatural, que tem seu começo lá em 1932, com “A Múmia”, estrelado por Boris Karloff. Porém, este novo longa-metragem tem um diferencial em relação aos seus pares, pois é uma obra que realmente foca no terror, com muito sangue, cenas repugnantes e deixando praticamente o humor (muito usado nos filmes dos anos 2000, protagonizados por Brendan Fraser) de lado.
Na trama, uma família americana que mora no Egito, o pai jornalista, Charlie (Jack Reynor) e a enfermeira Lari (Laia Costa), sofrem com o rapto de sua filha pequena, Katie (Natalie Grace). Oito anos depois e já morando em Albuquerque, no Novo México (EUA), e com uma outra filha, eles recebem a notícia de que Katie foi encontrada no deserto, dentro de um sarcófago que estava sendo transportado por um pequeno avião, que caiu, matando seus pilotos.
A garota, agora uma adolescente, volta ao convívio dos pais. Porém, seu corpo está destroçado, coberto de chagas, os membros retorcidos, depois de anos de aprisionamento e sofrimento. Só que Katie carrega dentro de si um demônio – sim, aqui a múmia é mais um demônio malévolo, disposto a se libertar e matar todo mundo ao seu redor.
“A Maldição da Múmia” é um filme tenso, repleto de referências, como por exemplo “A Profecia”, “O Silêncio do Lago”, “Fome Animal” e “A Morte do Demônio”, O diretor não poupa cenas de vômitos, pele arrancada, sangue jorrando à profusão e inocentes possuídos e trabalhando em prol do demônio – a produção escorrega no humor somente em determinada cena onde aparece a avó extremamente católica.
O filme poderia ser mais curto – ele ultrapassa as duas horas -, e tem alguns momentos personagem idiota, como por exemplo, por que eles insistem em ficar no escuro, tendo o interruptor do lado? Mas são detalhes. No final, “A Maldição da Múmia” surpreende, assusta e se mostra uma obra digna do gênero.
Cotação: bom
Duração: 2h17min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=fUANevKVe78

“O ESTRANGEIRO” ((L’Étranger))

Foto: California Filmes
Baseado no clássico homônimo da literatura mundial escrito pelo franco-argelino Albert Camus (1913-1960), “O Estrangeiro” ((L’Étranger), é dirigido por François Ozon. A obra já havia ido para as telas em 1967, pelas mãos de Luchino Visconti e com Marcelo Mastroianni como o protagonista.
Esta nova versão, filmada toda em preto e branco, é estrelada por Benjamin Voisin, parceiro de Ozon em “Verão de 85”, que aqui vive o jovem Meursault, um francês que vive em Argel, na Argélia dos anos 1930. Ele trabalha em um escritório, mas pede uns dias de folga depois que recebe a notícia de que sua mãe, que vivia em um asilo, morreu.
Meursault vai ao funeral, onde não demonstra sentimentos pela perda, e depois, passa os dias a vagar por Argel com a recente namorada, Marie (Rebecca Marder). Vão ao cinema, bares, à praia, quando ocorre a tragédia. O jovem acaba, depois de um desentendimento, assassinando um jovem árabe, à sangue-frio.
O episódio provoca sua prisão, e um julgamento. A visão da acusação não é apenas no assassinato, mas também a postura e a personalidade do jovem, visto como uma pessoa indiferente a tudo e todos. Ele não parece se importar nem com o destino dele mesmo...
O filme é reflexivo, tanto que em quase toda a sua primeira parte, não existem diálogos, apenas o dia a dia de Meursault, e apenas uma trilha sonora tensa – aliás, nos créditos é tocada a sensacional “Killing an a Arab”, hit de 1979 do The Cure. Aliás, outro destaque de “O Estrangeiro” é sua excepcional reconstituição de época...tudo é bem cuidado, desde as roupas, os carros, os penteados.
Cotação: ótimo
Duração: 2h03
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=7e3DoPyFH0M

“PINÓQUIO”

Foto: Paris Filmes
"Pinóquio" é uma adaptação live-action do conto de Carlo Collodi, dirigida pelo russo Igor Voloshin. A produção russa é focada em nostalgia e moralidade, mas trazendo muitas mudanças em relação ao conto lançado em 1883.
O filme é baseado numa versão russa conhecida como Buratino, inspirada na obra de Aleksey Tolstoy (1936). A história todo mundo conhece, do boneco de madeira construído pelo artesão Gepetto, que fez um pedido e uma fada deu vida ao marionete – que podendo andar e falar, passa a desejar ser um garoto de carne e osso.
Nesta versão, não existe a Fada Azul, nem o Grilo Falante. Ela é substituída por uma tal dona tartaruga, enquanto que o grilo é trocado por três baratas, e uma delas é a narradora da história. Além disso, Pinóquio não mente, ou seja, seu nariz não cresce. E no final, o boneco não se transforma em um menino de verdade, permanecendo de madeira.
Não bastasse isso, o filme é um emaranhado de técnicas de filmagem, passando a grande sensação de que ele foi todo gerado por IA (inteligência artificial). “Pinóquio” acaba sendo cansativo, com suas longas cenas de canto e dança, alterações da história. Tudo soa tão artificial, que decepciona fortemente.
Cotação: ruim
Duração: 1h42
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5uDJGeb9FME

“SALA-ESCURA - CINEMA POR CHICO IZIDRO” COMPLETA 20 ANOS

Então é isso, o “Sala-Escura, Cinema por Chico Izidro”, acaba de completar 20 anos – sim, duas décadas e mais de 2.500 análises de filmes. ...