O diretor Richard Linklater já havia feito o laboratório na trilogia "Antes do Amanhecer", "Antes do Pôr-do-Sol" e "Antes da Meia-Noite", onde acompanhou o casal Jessie e Celine (Ethan Hawke e Julie Delpy) ao longo de 20 anos. Pois em "Boyhood - Da Infância à Juventude", ele alcançou a excelência ao observar durante 12 anos a vida de um garoto, Mason (Ellar Coltrane). Quando as filmagens começaram em 2002, o protagonista tinha apenas cinco anos de idade. Durante esse período, a equipe se reunia todos os anos, por alguns dias para tocar um pouco mais a história. No final, Mason estava com 18 anos.
Na trama, Mason mora com a mãe Olivia (Patricia Arquette) e a irmã Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor). O pai é vivido por Ethan Hawke e aparece de vez em quando, para levar as crianças para passear. O roteiro não inventa muito, mostrando o crescimento de Mason, o desajuste da família - a mãe se envolve romanticamente com homens errados, e é comum o abandono de lares apenas com a roupa do corpo. A passagem do tempo surge de forma sutil, sem indicações na tela. Notamos pelas mudanças físicas dos personagens e pela trilha sonora. Logo no começo, Samantha canta "Oops, I did again", de Britney Spears, clássico pop lá do começo dos anos 2000.
A transformação de Patricia Arquette é a mais gritante. No começo, ela está linda, corpo violão e vai, no passar dos anos, perdendo o vigor físico. Mason vai adotando cortes diferentes de cabelos ao longo dos anos. O projeto de "Boyhood - Da Infância à Juventude" foi arriscado, porque o garoto, Ellar Coltrane, poderia simplesmente ter desistido da empreitada, se perdido no meio do caminho. Mas não, ele se manteve fiel, neste belo retrato da juventude americana neste início de século XXI.
Cotação: ótimo
Chico Izidro
quinta-feira, novembro 27, 2014
"Boa Sorte"
"Boa Sorte", dirigido por Carolina Jabor, passa-se numa clínica de recuperação de drogados, mas trata-se de amor. Afinal, o que é a vida sem amor? A história gira em torno do jovem de 17 anos João (João Pedro Zappa), internado pelos pais devido ao seu jeito largado, irresponsável e uso de drogas tarja preta. Na clínica, ele conhece uma garota de seus 30 anos, Judite. Ela é esperta, bonita e parece cheia de vida, mas é portadora do vírus HIV. Judite é interpretada por Deborah Secco, que emagreceu mais de 15 quilos para o papel.
João e Judite logo tornam-se amigos, e a amizade transforma-se em amor, algo que talvez a garota não quisesse, pois sabe que seu tempo na terra é curto - de tanto se drogar, os coquetéis anti-vírus já não fazem efeito em seu organismo. João não está nem aí, e de tão apaixonado, até sonha em casar e ter filhos com Judite. Numa cena forte, ele tenta transar com Judite sem camisinha. "Você está louco, garoto? Quer morrer?", berra ela, afastando-o. "Eu não me importo", responde ele, carente, e que acha ter o poder da invisibilidade. Afinal, em casa, seus pais pareciam não notar sua presença. A cena em que os dois acham estar invisíveis e fogem da clínica é divertidíssima.
Deborah Secco tem grande interpretação, até mesmo superior ao de Bruna Surfistinha. Outro destaque é Fernanda Montenegro, como a avó de Judite, e usuária de maconha. O jovem João Pedro Zappa vai bem, até uma das cenas finais, quando mostra-se incapaz de demonstrar emoção, estragando a sequência.
Cotação: bom
Chico Izidro
João e Judite logo tornam-se amigos, e a amizade transforma-se em amor, algo que talvez a garota não quisesse, pois sabe que seu tempo na terra é curto - de tanto se drogar, os coquetéis anti-vírus já não fazem efeito em seu organismo. João não está nem aí, e de tão apaixonado, até sonha em casar e ter filhos com Judite. Numa cena forte, ele tenta transar com Judite sem camisinha. "Você está louco, garoto? Quer morrer?", berra ela, afastando-o. "Eu não me importo", responde ele, carente, e que acha ter o poder da invisibilidade. Afinal, em casa, seus pais pareciam não notar sua presença. A cena em que os dois acham estar invisíveis e fogem da clínica é divertidíssima.
Deborah Secco tem grande interpretação, até mesmo superior ao de Bruna Surfistinha. Outro destaque é Fernanda Montenegro, como a avó de Judite, e usuária de maconha. O jovem João Pedro Zappa vai bem, até uma das cenas finais, quando mostra-se incapaz de demonstrar emoção, estragando a sequência.
Cotação: bom
Chico Izidro
"Elsa e Fred"
Hollywood não costuma ser muito gentil com refilmagens de filmes feitos em outros países. Invariavelmente, a indústria norte-americana consegue estragar o que havia ficado bom em sua origem. Não é o caso de "Elsa e Fred", remake de uma película argentina de 2005. A nova versão é dirigida por Michael Radford e traz nos papéis principais Shirley MacLane, de "Se Meu Apartamento Falasse", e Christopher Plummer, de "A Noviça Rebelde".
O filme é delicado e vai agradar as pessoas de todas as idades. E mostra que não existe época para amar. É só abrir o coração. Elsa (MacLane) é uma septuagenária independente, vivaz e sonhadora. Seu grande sonho é conhecer a Fontana Di Trevi, imortalizada no clássico "A Doce Vida", de Fellini. Ela delira ao ver e rever a cena em que Anita Ekberg seduz Marcelo Mastroiani na fonte. E Elsa acha que encontrou o Marcelo de sua vida em Fred, recém-viúvo que mudou-se para o apartamento ao lado. Só que ele é ranzinza, enclausurado em seu canto, e nem um pouco disposto a cair nas graças de Elsa, adepta de pequenas mentiras para adoçar um pouco a vida.
Shirley MacLane e Christopher Plummer, que viveram papéis românticos e alguns clássicos do cinema nos anos 1950 e 1960, estão bem à vontade em seus papéis nesta divertida comédia romântica inspiradora.
Cotação: bom
Chico Izidro
O filme é delicado e vai agradar as pessoas de todas as idades. E mostra que não existe época para amar. É só abrir o coração. Elsa (MacLane) é uma septuagenária independente, vivaz e sonhadora. Seu grande sonho é conhecer a Fontana Di Trevi, imortalizada no clássico "A Doce Vida", de Fellini. Ela delira ao ver e rever a cena em que Anita Ekberg seduz Marcelo Mastroiani na fonte. E Elsa acha que encontrou o Marcelo de sua vida em Fred, recém-viúvo que mudou-se para o apartamento ao lado. Só que ele é ranzinza, enclausurado em seu canto, e nem um pouco disposto a cair nas graças de Elsa, adepta de pequenas mentiras para adoçar um pouco a vida.
Shirley MacLane e Christopher Plummer, que viveram papéis românticos e alguns clássicos do cinema nos anos 1950 e 1960, estão bem à vontade em seus papéis nesta divertida comédia romântica inspiradora.
Cotação: bom
Chico Izidro
"Irmã Dulce"
A cinebiografia da freira chamada Anjo Bom da Bahia, "Irmã Dulce", dirigido por Vicente Amorim, passou do ponto. Apesar da boa reconstituição de época, da caracterização das favelas de Salvador, o filme é um dramalhão. A história começa nos anos 1920, quando ainda garotinha, batizada Maria Rita, foi levada para a mãe a uma favela, para alimentar os pobres. Ali a menina teve o primeiro choque de realidade ao ver as pessoas se atirarem, famintas, para pegar um naco de pão.
O filme dá um pulo no tempo, passando a mostrar sua entrada no convento, ganhando o nome de Dulce. Que era impulsiva e não respeitava as normas do convento, pois achava mais importante ajudar os necessitados, que ia encontrando aos montes pela rua de Salvador. Com a saúde frágil e um sério problema pulmonar, os médicos lhe deram pouco tempo de vida. Mas contra todos os prognósticos, Irmã Dulce viveu muito e brigou contra o sistema vigente. No filme, é utilizado o personagem fictício de João (Amaurih Oliveira) para mostrar sua batalha contra as injustiças sociais.
Irmã Dulce foi interpretada na primeira fase por Bianca Comparato, e já na fase madura por Regina Braga, que ficou a cara da cinebiografada. Mas os ajudantes não ajudam no desenvolvimento da história, mostrando-se caricatos, como por exemplo a madre superiora do convento, Madre Fausta (Malu Valle), e Dulcinha (Zezé Polessa). Açucar demais. Nem mesmo as imagens reais mostradas no final do filme ajudam.
Cotação: ruim
Chico Izidro
O filme dá um pulo no tempo, passando a mostrar sua entrada no convento, ganhando o nome de Dulce. Que era impulsiva e não respeitava as normas do convento, pois achava mais importante ajudar os necessitados, que ia encontrando aos montes pela rua de Salvador. Com a saúde frágil e um sério problema pulmonar, os médicos lhe deram pouco tempo de vida. Mas contra todos os prognósticos, Irmã Dulce viveu muito e brigou contra o sistema vigente. No filme, é utilizado o personagem fictício de João (Amaurih Oliveira) para mostrar sua batalha contra as injustiças sociais.
Irmã Dulce foi interpretada na primeira fase por Bianca Comparato, e já na fase madura por Regina Braga, que ficou a cara da cinebiografada. Mas os ajudantes não ajudam no desenvolvimento da história, mostrando-se caricatos, como por exemplo a madre superiora do convento, Madre Fausta (Malu Valle), e Dulcinha (Zezé Polessa). Açucar demais. Nem mesmo as imagens reais mostradas no final do filme ajudam.
Cotação: ruim
Chico Izidro
"Saint-Laurent"
Dois filmes no mesmo ano sobre o mesmo personagem, no caso o estilista franco-argelino Yves Saint-Laurent (1936-2008). O primeiro foi para as telas no começo do ano e se chamou "Yves Saint-Laurent", e tinha o aval do fiel escudeiro do artista, seu ex-marido e parceiro comercial Pierre Bergér. E mostrava a vida de YSL desde a infância até a morte. Já "Saint-Laurent", dirigido por Bertrand Bonello, fixa-se apenas em uma década da vida do estilista, exatamente entre os anos de 1967 e 1976, o auge de sua criatividade.
E por ser mais específico, mais centrado, torna-se melhor. Esta década foi, além de criativa, de desbunde para YSL, que trabalhava arduamente em seu ateliê, era casado com Pierre Bergér (Jérémie Renier), mas não abria mão dos casos extra-conjugais, ao mesmo tempo que consumia doses industriais de drogas. O filme traz ótima reconstituição de época e quase em seu término recria um dos maiores desfiles feitos pelo estilista em Paris nos anos 1970. Nenhuma cena é gratuita, nem mesmo as homoeróticas, com closes de frontais masculinos.
YSL vagava por Paris a noite, em busca de aventuras sexuais, mas também frequentava boates. E numa dela conseguiu contratar uma modelo, que tornaria-se grande amiga, Renée (Valérie Donzelli). O estilista é interpretado perfeitamente por gaspar Ulliel, de "Hannibal, A Origem do Mal". Ele não se mostra caricato, e pegou bem a essência de seu personagem.
Cotação: ótimo
Chico Izidro
E por ser mais específico, mais centrado, torna-se melhor. Esta década foi, além de criativa, de desbunde para YSL, que trabalhava arduamente em seu ateliê, era casado com Pierre Bergér (Jérémie Renier), mas não abria mão dos casos extra-conjugais, ao mesmo tempo que consumia doses industriais de drogas. O filme traz ótima reconstituição de época e quase em seu término recria um dos maiores desfiles feitos pelo estilista em Paris nos anos 1970. Nenhuma cena é gratuita, nem mesmo as homoeróticas, com closes de frontais masculinos.
YSL vagava por Paris a noite, em busca de aventuras sexuais, mas também frequentava boates. E numa dela conseguiu contratar uma modelo, que tornaria-se grande amiga, Renée (Valérie Donzelli). O estilista é interpretado perfeitamente por gaspar Ulliel, de "Hannibal, A Origem do Mal". Ele não se mostra caricato, e pegou bem a essência de seu personagem.
Cotação: ótimo
Chico Izidro
quinta-feira, novembro 20, 2014
"Castanha"
"Castanha", dirigido por Davi Pretto, é um filme semidocumental, pois mistura ficção e realidade para falar da vida do ator e performer gaúcho João Carlos Castanha, 52 anos de idade, e de sua mãe Celina. No longa, são reencenadas acontecimentos da vida de Castanha, onde alguns atores interpretam pessoas presentes na vida dele.
Castanha vive com a mãe, Celina, 72 anos, que interprela ela mesma. Os dois moram num condomínio na zona sul de Porto Alegre. E ele faz pontas em peças teatrais e apresenta-se, de drasg queen, em boates gays da cidade. Castanha leva uma vida simples, fuma barbaridades, e é sugerido no filme ser ele HIV positivo. O filme mostra os problemas da família - o pai internado num asilo, e o sobrinho viciado em crack (o jovem é interpretado por Gabriel Nunes), e as brigas de dona Celina com a síndica do condomínio, por causa dos cachoros, que fazem muito barulho e incomodam a vizinhança.
"Castanha" é um filme triste, mostrando alguém que foi e é fiel a seus ideais, e por isso paga um preço caro. O ator vive, praticamente, de bicos. Não tem planos de saúde. Sua vida é tão simples, que ele é mostrado na madrugada, saindo da boate e caminhando sob a chuva para poupar o dinheiro da passagem. Triste, mas real.
Cotação: ótimo
Chico Izidro
Castanha vive com a mãe, Celina, 72 anos, que interprela ela mesma. Os dois moram num condomínio na zona sul de Porto Alegre. E ele faz pontas em peças teatrais e apresenta-se, de drasg queen, em boates gays da cidade. Castanha leva uma vida simples, fuma barbaridades, e é sugerido no filme ser ele HIV positivo. O filme mostra os problemas da família - o pai internado num asilo, e o sobrinho viciado em crack (o jovem é interpretado por Gabriel Nunes), e as brigas de dona Celina com a síndica do condomínio, por causa dos cachoros, que fazem muito barulho e incomodam a vizinhança.
"Castanha" é um filme triste, mostrando alguém que foi e é fiel a seus ideais, e por isso paga um preço caro. O ator vive, praticamente, de bicos. Não tem planos de saúde. Sua vida é tão simples, que ele é mostrado na madrugada, saindo da boate e caminhando sob a chuva para poupar o dinheiro da passagem. Triste, mas real.
Cotação: ótimo
Chico Izidro
"Debi e Loide 2"
O primeiro filme, de 1994, que trazia dois idiotas completos se envolvendo em confusões na gélida Aspen até tinha certa graça, com piadas frescas. Pois agora, exatos vinte anos depois, os irmãos Bobby e Peter Farrelly reúnem novamente Jim Carrey e Jeff Daniels em "Debi e Loide 2", mas apenas requentam a fórmula, que foi engraçada há duas décadas.
Desta vez, a dupla de imbecis cai na estrada em busca de uma suposta filha de Debi - ele precisa de um transplante de rim, e descobre a existência de uma filha, que teria tido com uma antiga namorada, e que foi entregue para adoção. O jeito é encontrá-la e ver se a garota lhe cederá o órgão. Então nas próximas quase duas horas, dê-lhe piadas batidas de peidos, arrotos, sustos, empurrões, e outras bobagens. Nem as caretas de Jim Carrey são exitosas desta vez. Uma ou outra sacada se salva nesta verdadeira bobagem.
Cotação: ruim
Chico Izidro
Desta vez, a dupla de imbecis cai na estrada em busca de uma suposta filha de Debi - ele precisa de um transplante de rim, e descobre a existência de uma filha, que teria tido com uma antiga namorada, e que foi entregue para adoção. O jeito é encontrá-la e ver se a garota lhe cederá o órgão. Então nas próximas quase duas horas, dê-lhe piadas batidas de peidos, arrotos, sustos, empurrões, e outras bobagens. Nem as caretas de Jim Carrey são exitosas desta vez. Uma ou outra sacada se salva nesta verdadeira bobagem.
Cotação: ruim
Chico Izidro
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