sexta-feira, novembro 02, 2012

"Porto dos Mortos"


Em tempos de um seriado televisivo de rigor estético e roteiro afiado de "The Walking Dead", é decepcionante assistir "Porto dos Mortos". Mesmo com a produção local, já que foi filmado em Porto Alegre e Viamão e dirigido pelo gaúcho Davi de Oliveira Pinheiro, com atores do Estado, não dá para passar a mão na cabeça. O filme é ruim, é mal-feito.

Numa Porto Alegre pós-apocalípse, um policial solitário vaga em seu maverick preto à caça de um serial killer, que estaria possuído por um demônio. A cidade está tomada por zumbis, e os poucos sobreviventes se refugiam em prédios abandonados. Em sua trajetória, o policial (Rafael Tombini) depara com um samurai japonês atrapalhado, um casal de jovens que está conseguindo sobreviver no meio do caos graças à esperteza, e mortos-vivos que simplesmente não atacam ninguém. Ficam lá, zanzando, patéticos.

Infelizmente o roteiro de "Porto dos Mortos" é capenga, apesar do cuidado em não ocorrer erros de sequência. As atuações também impressionam pelo amadorismo completo. Faltou melhor direção dos atores, que muitas vezes declamam suas falas. Os personagens, aliás, beiram o caricatural. Um dos vilões lembra um cangaceiro usando uma máscara antigás. A maquiagem é de uma precariedade rísivel. Até no evento Zombie Walk, o visual dos participantes é melhor elaborado. Aqui a produção parece ter se contentado em passar uma tinta cinza no rosto dos atores, e era isso.

Cotação: ruim
Chico Izidro

"Possessão"


Natasha Calis, que interpreta a garotinha Em é o grande achado do terror "Possessão", dirigido por Ole Bornedal. Seus olhares ora desesperados, ora satânicos, impressionam. "Possessão" não é feito para dar sustos, mas sim causar tensão. Por isso se diferencia um pouco dos últimos filmes do gênero. Claro que estão lá o corpo retorcido, as vozes sussurradas, os objetos voando pela casa, alguém entrando num ambiente escuro e disparando a frase: "Quem está aí?".

Em é a filha mais nova de pais recém separados, Clyde (Jeffrey Dean Morgan) e Stepanhie (Kyra Sedgwick, de Nascido em 4 de Julho). Ela se encanta e ganha de presente de Clyde uma caixa com dizeres em hebraico. Mal sabe que o objeto serve para prender um espírito maligno, um dibuk. Ao abrir a caixa, ela será possuída aos poucos pela alma penada, para desespero de seu pai e incompreensão da mãe, que acha ela estar sendo maltradada por ele. Morgan, o super-herói Comediante, de "Watchmen", está muito bem no papel de pai rejeitado pela ex-esposa e tentando se entender com as filhas adolescentes, mas Kyra é só caras e bocas, parecendo não entender o que faz num filme de terror, apesar de protagonizar ótima cena na cozinha, tentando salvar a filha possuída, ao mesmo tempo que pisa em vidros quebrados e corre o risco de ser esfaqueada.

O jeito de salvar a menina é procurar alguém que realize o exorcismo, e ele é encontrado na figura do judeu ortodoxo Tzadok (o rapper Matiyahu), personagem com algumas das melhores tiradas de "Possessão". O espectador só vai se perguntar no final: "Tá, cadê o susto?".

Cotação: regular
Chico Izidro

"O Mar Não Está Prá Peixe 2"



Eis uma animação totalmente voltada para o público infantil. ""O Mar Não Está Prá Peixe 2", de Mark A. Z. Dippé, é feito sob medida para os pais levarem os pequerruchos ao cinema. Quase nada de referências cinematográficas, nem piadas de duplo sentido. Fica bem clara a diferença entre obem e o mal, nas figuras do peixinho dourado Pi, herói do recife onde os seres marítimos vivem em harmonia, e o tubarão Troy. Esse consegue fugir da gaiola onde estava aprisionado, e servindo como cobaia para experimentos científicos, voltando para aterrorizar os peixinhos.

Pi é uma espécie de Karatê Kid - e aí está a única referência a um filme. O peixinho dourado foi treinado por uma tartaruga com feições orientais, e é um mestre nas artes marciais, usando a força de suas nadadeiras. Pi tem de treinar seus companheiros, que preferem dançar, a lutar contra Troy e seus comparsas. O trabalho estético de "O Mar Não Está Prá Peixe 2" é simplesmente espetacular. Talvez renda mais em 3D. Temos a impressão de que foi tudo filmado no mar mesmo, tal perfeição. Às vezes parece que estamos olhando para um aquário, com a diversidade de cores, o movimento dos peixes. É isso que vai segurar a criançada nas poltronas, hipnotizadas. Os adultos aqui nem chegam a coadjuvantes.

Cotação: regular
Chico Izidro

sábado, outubro 27, 2012

"Selvagens"


Oliver Stone há muito deixou de ser aquele cineasta instigante e provocador, mesmo que por vezes se equivoca-se em algumas posições. Ele vem destacando-se ultimamente mais por seu apoio a ditadores do naipe de Hugo Chávez do que por suas obras cinematográficas. Em seu currículo os belíssimos "Platoon", "Salvador - O martírio de um povo", "Nascido em 4 de Julho" e até mesmo a papagaiada "JFK - A Pergunta que Não quer Calar".

Então "Selvagens", por mais que lembre "Assassinos Por Natureza", não parece ser um filme de Oliver Stone. Trata do narcotráfico e com seu ritmo alucinado mais lembra o estilo Quentin Tarantino, sem suas referências pop e kitsch. Stone nunca foi tão sanguinário - o diretor não poupa cenas de degolamentos, torturas, apelando até mesmo para o microondas, aquele ritual sádico onde uma pessoa é presa a um pneu e tem o corpo queimado com gasolina.

A trama começa sendo narrada por Ophelia (Blake Lively) ao estilo "Crepúsculo dos Deuses". Mas ao contrário de Joe Gillis (William Holden), morto na piscina e que narra como foi parar ali, Ophelia ainda não sabe se morreu mesmo ou se ainda respira. Ela é namorada dos amigos Chon (Taylor Kitsch, de Battleship - A Batalha dos Mares) e Ben (o irreconhecível Aaron Taylor-Johnson, que destacou-se antes em O Garoto de Liverpool e Kick Ass - Quebrando Tudo), que a dividem sem ciúmes. Os dois construíram uma pequena fortuna vendendo a melhor maconha do sul da Califórnia. E isso atiçou um cartel de traficantes mexicanos, liderado pela Rainha Elena (Salma Hayek, extremamente over na canastrice, longa peruca negra e imensos seios). Ou Chon e Ben aceitam repartir seus lucros com a gangue, ou deixam o negócio. Como se negam, Ophelia é sequestrada pelos capangas de Elena. Começa então uma corrida para resgatar a garota.

O melhor de "Selvagens" é Benicio del Toro, no papel de um cruel assassino a serviço de Elena. Ele utiliza um visual sujo, um olhar enviesado, sempre segurando um cigarro. E atirando em qualquer um que não aceite suas ordens. John Travolta também está à vontade como um agente corrupto do FBI, tentando se passar por esperto, mas no fundo um atrapalhado. O filme tem seu charme, com seu visual ora colorido, ora soturno. A crueldade utilizada pelos cartéis mexicanos, como por exemplo os Los Zeta, é fielmente retratada - os assassinos utilizam até mesmo aquelas máscaras cadavéricas para esconder a identidade e apavorar os oponentes.

Pena que no final, Stone opte por duas situações. E a sua incerteza acaba decepcionando.

Cotação: regular
Chico Izidro

quinta-feira, outubro 25, 2012

"Em Nome de Deus"



Antes, esqueça o título em português, apelativo e nenhum pouco criativo. "Em Nome de Deus", no original "Captive" ou prisioneiro, direção de Brillante Mendoza, é baseado em fatos reais e não doura a pílula, mostrando o destino de um grupo de pessoas seqeustradas nas Filipinhas em 2001 pelo grupo terrorista muçulmano Abu Sayyaf. Os guerrilheiros lutavam pela independência de uma parte do território filipino e contra a expulsão dos estrangeiros.

Focado na missionária francesa Thérèse Bourgoin, vivido pela excelente Isabelle Huppert, raptada por engano junto com vários turistas e funcionários de um resort - os terroristas exigiam uma quantia milionária para libertar cada preso, e a família dela não possuia posses. Por isso Thérèse acabou ficando mais de um ano em poder dos extremistas, enquanto no período outros reféns iam sendo libertados à medida que tinham seus resgates pagos. A história lembra muito o sofrimento passado pela política franco-colombiana Ingrid Bittencourt, que ficou vários anos nas mãos da FARC. Os prisioneiros passavam os dias fugindo pelas inóspitas florestas asiáticas, passando fome, frio, calor. Muitos deles acabavam sendo cooptados pelas forças rebeldes - algumas mulheres eram obrigadas a se casar com os terroristas, além de ter de se converter ao islamismo.

O diretor filipino Brillante Mendoza conseguiu criar um clima sufocante e opressivo em "Em Nome de Deus". A impressão para o espectador é de que ele está lá no meio do furacão. As intempéries, os perigos das florestas, com os animais peçonhentos à espreita, as infecções. E o pior, os soldados que eram enviados pelo governo não pareciam dispostos a libertar os reféns, mas sim eliminar os guerrilheiros. Ou seja, nos tiroteios, extremamente realistas, os reféns ficam na linha de fogo, e o exército não os diferencia dos seus inimigos. Houve ainda a preocupação em aprofundar os personagens, mostrando suas características, fraquezas, virtudes, fanatismo. E sem esquecer o mal que aflige prisioneiros: a síndrome de Estocolmo, quando os presos acabam simpatizando com seus algozes.

Cotação: ótimo
Chico Izidro

"Atividade Paranormal 4"



"Atividade Paranormal 4" mostra que a fórmula de terror com câmeras subjetivas - aquelas em que os personagens seguram a câmera, mostrando o que está ocorrendo ao seu redor, e que se popularizou a partir de "A Bruxa de Blair" - está esgotada.

Esta continuação, dirigida por Henry Joost e Ariel Schulman, mostra o destino do pequeno Hunter, sequestrado pela tia em "Atividade Paranormal 3", depois de ela ter assassinado o restante da família.

Agora em uma outra daquelas famílias típicas americanas de classe média, a filha mais velha, Alex (Kathryn Newton), começa a notar estranhas movimentações na casa. A garota ainda começa a se enervar com a presença de um garotinho estranho, que começa a ser cuidado pelos pais dela, depois de a mãe dele ter ficado doente. Alex e o namorado decidem documentar tudo o que se passa na casa, não só com câmeras, mas utilizando também os laptops e celulares.

Só que falta inspiração. A gente fica lá esperando algo acontecer, algo se mexer, aquele susto que nos faz pular da poltrona. Nada acontece, ou seja, se você viu um, viu todos.

"Atividade Paranormal 4" acaba sendo uma cópia desnecessária de seus antecessores. E até o seu final é igualzinho, com a aparição daqueles seres fantasmagóricos, com bocas torcidas, olhos negros e dentes enormes, perseguindo a protagonista.

Cotação: ruim
Chico Izidro

quinta-feira, outubro 18, 2012

"As Vantagens de Ser Invisível"



Ser novato na escola não é fácil. O bullying está logo ali, à espreita. Até você se enturmar, o sofrimento impera. Então você se encaixa, conhece aquele carinha descolado - que passa por todas as barreiras sociais do colégio -, e aparece aquela garota linda que vai balançar o seu coração solitário. Chegam as festas, as bebedeiras, em alguns casos as drogas. Tudo isso é retratado no singelo e saudosista "As Vantagens de Ser Invisível", dirigido por Stephen Chbosky, também o autor do livro autobiográfico, de mesmo nome.

O personagem central é o deslocado Charlie (Logan Lerman, de "Percy Jackson"), que irá se enturmar com Patrick (Ezra Miller, mais uma vez excelente, a exemplo de sua participação em "Precisamos Falar Sobre Kevin"), e Sam (Ema Watson, a eterna Hermione, de "Harry Potter"). O garoto, que planeja ser escritor, igualmente sofre com delírios e desmaios, e com a ausência da tia Helen (Melanie Lynskey, a Rose de "Two and a Half Man), que morreu num acidente automobilístico quando ele era pequeno, e de um amigo, que cometeu suicídio.

"As Vantagens de Ser Invisível" transcorre no início dos anos 1990, traz um final chocante, e uma trilha sonora pop, que cruza os anos 1970, com David Bowie e sua icônica Heroes, chega à década seguinte com Dexy's Midnight Runner, Air Supply, Crowded House, Smiths, e invade os anos 1990, com Sonic Youth, Pavement e L7.

A história acaba tocando a todos, pela sua delicadeza em mostrar o primeiro beijo, o primeiro namoro - e como aquela guria era chata, possessiva e grudenta -, e até o oitentista costume de se gravar uma fita cassete com aquelas músicas para presentear a garota desejada, com comentários apaixonados entre as faixas. Quem nunca fez isso que atire a primeira pedra...

Cotação: ótimo
Chico Izidro

“DA MAGIA À SEDUÇÃO: FEITIÇO DO AMOR” (Practical Magic 2)

Fotos: Warner Bros. Pictures “Da Magia À Sedução: Feitiço de Amor” (Practical Magic 2) sai exatos 28 anos depois de "Da Magia à Seduçã...