sexta-feira, maio 31, 2019
"Rocketman"
A vida e a carreira do músico pop Elton John é destrinchada em "Rocketman", direção de Dexter Fletcher, e que é apresentado em forma de musical. E a história não tem rodeios, mostrando abertamente cenas de sexo gay e uso de drogas pelo cantor de pérolas como "Empty Garden", "Goodbye Yellow Brick Road", "Daniel", "Nikita" e "Tiny Dancer", entre outros clássicos.
O longa é um musical clássico, com os atores cantando e dançando com belas coreografias - as músicas de Elton John embalam a trilha sonora e contam a história, quase todas na voz do ator Taron Egerton, que apresenta uma performance espetacular interpretando o cantor e soltando a própria voz, sem apelar para a dublagem. Nada foi vetado na trama, que destaca o vício em bebidas e drogas do cantor, assim como sua jornada de recuperação.
É realçada também a difícil relação que ele teve com o pai frio e distante e que o privou de carinho - o pai é vivido por Steven Mackintosh, ótimo. E na pele da mãe a também excelente Bryce Dallas Howard, que faz uma genitora muito pouco preocupada em criar o seu rebento, mais preocupada com seus vestidos e namorados. Mas é mostrada também a amizade e parceria com seu parceiro de mais de 50 anos, Bernie Taupin, interpretado com perfeição por Jamie Bell, e que é o letrista das músicas de Elton John. O filme, que tem o próprio artista entre os produtores, também não censura nada, mostrando uma cena de sexo gay e uma orgia.
É difícil não cair em comparações com outras cinebiografias do meio musical, principalmente com o recente e equivocado "Bohemian Rhapsody", que errou feio ao tentar contar a vida de outro ícone musical, Freddie Mercury. "Rocketman" acertou em cheio, entregando um filmaço musical que havia muito não ocorria.
Duração: 2h02
Cotação: ótimo
Chico Izidro
"Godzilla II: Rei dos Monstros" (Godzilla: King of the Monsters)
"Godzilla II: Rei dos Monstros" (Godzilla: King of the Monsters), dirigido por Michael Dougherty, parte de onde finalizou o bom filme de 2014, após a batalha que destruiu São Francisco. Escrito pelo próprio Michael Dougherty e Zach Shields, mostra um mundo que tenta se reerguer depois das destruições anteriores e lidar com a presença do gigantesco lagarto no planeta.
Agora outros monstros, chamados de Titãs, despertaram e saíram das profundezas da Terra, entre eles a ameaça chamada Ghidorah, que fará com que Godzilla apareça para tentar manter seu domínio. Porém, o filme consegue trazer uma penca de personagens chatos, envolvidos em momentos que não fazem nenhum sentido para a história, com reviravoltas ridículas.
Os personagens vividos por Vera Farmiga, Ken Watanabe, Charles Dance e Kyle Chandler são completamente incompreensíveis, mal desenvolvidos. Nem mesmo a garotinha Millie Bobby Brown, em seu primeiro grande papel no cinema após o sucesso na série Stranger Things, consegue se salvar. Ela vive Madson, filha dos cientistas interpretados por Vera e Chandler, e não sabe o que faz em cena. Lamentável.
"Godzilla II: Rei dos Monstros" é um filme excessivamente longo, cansativo, com imagens escuras - para talvez não realçar os efeitos especiais ruins. O jeito é esperar para que acertem a mão em "Godzilla vs Kong", que está programado para o início de 2020. Quem viver, verá.
Duração: 2h12
Cotação: ruim
Chico Izidro
"Rindo à Toa - Humor sem Limites"
Ao assistir "Rindo à Toa - Humor sem Limites", documentário do trio Cláudio Manoel, Álvaro Campos e Alê Braga, fiz uma verdadeira viagem no tempo, regressando aos anos 1980, onde comecei a me formar culturalmente e musicalmente. Este trabalho é parte da trilogia que estuda o humor e comédia no Brasil, sendo continuação de Tá Rindo de Que?, que analisou o humor feito na época da ditadura no país.
"Rindo à Toa - Humor sem Limites" tem como ponto de partida a abertura política do Governo Militar em meados dos anos 1980, e a saída dos milicos do poder. Estão aqui depoimentos do pessoal do Planeta Diário, que só existiu graças ao semanário Pasquim, e que foi o embrião do televisivo Casseta e Planeta. E que antes da TV foi uma revista de humor engraçadíssima e polêmica.
O filme mostra ainda o trabalho de Marcelo Tas e Fernando Meirelles, que culminaria na criação do repórter Ernesto Varela, que costumava tirar sarro e irritar os políticos, como por exemplo Paulo Maluf muito antes do pessoal do CQC, comandado coincidentemente por Tas.
Também é aberto espaço para o grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, que revelou Regina Casé, Luis Fernando Guimarães e Evandro Mesquita, que faria sucesso ainda com a banda de rock seminal Blitz. E ainda se fala de Armação Ilimitada, TV Pirata, que revolucionaram a linguagem televisiva à época, Programa Legal. Os quadrinhos são recordados com a turma do Chiclete com Banana - Angeli, Laerte e Glauco.
E o rock de humor com bandas como Ultraje a Rigor, onde aparece uma entrevista no mínimo curiosa com seu líder Roger Moreira, hoje em dia com pensamentos de direita radical. Já os anos 1990 são lembrados principalmente com a turma de humoristas Hermes e Renato, grupo de Petrópolis (RJ) e que bombou na MTV com seu humor tosco e quase artesanal.
O documentário é muito bem realizado, com depoimentos bem dosados, na medida certa e com equilíbrio dos entrevistados. Ainda chama a atenção as imagens da época, dos programas de TV, dos jornais e revistas. Enfim, uma imersão no tempo.
Duração: 1h42
Cotação: ótimo
Chico Izidro
"Ma"
A excepcional atriz Octavia Spencer resolveu sair de sua zona de conforto e protagoniza o thriller "Ma", direção de Tate Taylor. Se Octavia costuma interpretar mulheres fortes e sempre voltadas para fazer o bem, desta vez ela vive Sue Ann, funcionária de uma pet shop e que aparentemente vive uma vida solitária e sofrida. Até que um dia conhece um grupo de adolescentes que pede sua ajuda para comprar bebida. Assim, Sue Ann vê a chance de fazer novos amigos.
Deslumbrados com a mulher, os jovens vão caindo em seus encantos. Até receberem uma proposta irrecusável, ao verem que não acham um lugar seguro na pequena cidadezinha para fazerem as suas festas. Sue Ann cede o porão de sua casa, contanto que seguissem algumas regras básicas. Mas aos poucos, Ma, apelido que recebe da garotada - diminutivo de Mammy ou mamãezinha, começa a mostrar comportamentos um pouco estranhos: carência, stalking, agressividade. Até chegar ao ponto que demonstra não ser aquilo que aparentava.
O passado de Sue Ann vai sendo mostrado em flashes - ela sofreu bullying dos pais de alguns dos garotos na época da escola. E tem a vingança como meta. A história até a sua metade vinha sendo bem conduzida, mas de repente a diretora perde a mão, e manda um filme onde os clichês do terror psicológico estão todos ali, presentes. E sem fazer spoiler, o final poderia ser diferente de tudo o que se faz, mas acaba sendo o mais do mesmo.
Duração: 1h40
Cotação: regular
Chico Izidro
"Anos 90" (Mid90s)
Dirigido e escrito pelo ator Jonah Hill, que embarca na direção e no roteiro pela primeira vez, "Anos 90" (Mid90s), é uma obra que trata de amadurecimento e conhecimento, através do adolescente Stevie, de 13 anos, que chega à idade com problemas em casa. Sua mãe é um pouco ausente e o irmão é violento seja verbalmente ou fisicamente com ele. O pai não existe.
A história se passa em Los Angeles em meados dos anos 1990, e é um belo retrato de época. Passeando pelas ruas da cidade, ele conhece um grupo de skatistas, que o atraem pela liberdade com que parecem se locomover. Stevie (Sunny Suljic) é introduzido no grupo por Ruben (Gio Galicia).
A turma é formada por Ray (Na-kel Smith, em excepcional atuação), o líder do grupo e uma espécie de mentor para Stevie, com bons conselhos para o garoto. Porra-Louca (Olan Prenatt) já é um pouco irresponsável, usuário de drogas e o jovem com certo poder aquisitivo. Há ainda o "Quarta Série" (Ryder McLaughlin), pobre, pouco inteligente e calado, mas que vai surpreender. E Ruben, aos poucos, vai se sentindo ameaçado pela presença de Stevie, começando a demosntrar ódio e inveja pelo garoto, que apesar dos 13 anos, aparenta ter bem menos idade. E ele, ao lado dos novos companheiros, terá as primeiras experiências com alcool, drogas e sexo e o primeiro tombo de skate.
O novato Sunny Suljic carrega muito bem o filme. Ele transmite com convicção o olhar de um garoto perdido, mas que tenta se encontrar. "Anos 90" fala ainda do que é mais importante para um jovem nesta idade: a amizade e ser aceito por um grupo. Emocionante.
Duração: 1h25
Cotação: ótimo
Chico Izidro
"Dias Vazios"
Baseado no romance "Hoje Está Um Dia Morto", o livro de André de Leones, "Dias Vazios", do diretor Bruno Almeida, é um drama existencial sobre jovens que vivem em cidades interioranas do Brasil, onde não existe muita perspectiva de futuro. A trama segue dois casais de adolescentes, em dois períodos - passado e presente.
No primeiro, Jean (Vinícius Queiroz) e Fabiana (Nayara Tavares) estavam no último ano do ensino-médio e tinham um dilema que os incomodava: sair da pequena cidade pequena ou continuar no local e reviver a história fracassada dos pais. Então Jean se suicida e Fabiana desaparece.
Dois anos depois, um outro casal de estudantes formado por Daniel (Arthur Ávila) e Alanis (Natália Dantas) buscam entender o que aconteceu com o casal anterior, tentando entender o que aconteceu com Jean e descobrir para onde foi Fabiana. Além disso, Daniel está tentando escrever um livro sobre os fatos passados, e se mostra aos poucos isolado e com pensamentos nada tranquilos, como entrar na escola e matar os colegas a tiros. E a diretora que ouve as confissões do jovem, uma freira, só escuta e manda o garoto rezar - ops, o que é isso? O sinal de alerta toca, o cara pensa em um massacre, e a mulher pensa em oração?
O título do filme vem bem calhar, pois é uma obra que retrata o vazio de pessoas que vivem sem muitas perspectivas em suas vidas. Ele é depressivo e por vezes, opressivo. O diretor e roteirista Robney Almeida trabalhou por oito anos no longa, e revelou a importância do projeto para a juventude: "O filme lança um olhar sobre jovens que vivem em pequenas cidades onde não se tem perspectivas de vida. O que fazem estes jovens? Quais os seus sonhos? Certamente a maioria optam em abandonar o local e vão tentar a sorte nas cidades grandes. Mas e aqueles que, por alguma razão, ficam? Qual a sorte que o destino lhes reserva? Sem querer apontar culpados ou soluções, o quis fazer do filme uma reflexão sobre esse tema."
Duração: 1h43
Cotação: bom
Chico Izidro
"Compra-me Um Revólver" (Cómprame un Revolver)
"Compra-me Um Revólver" (Cómprame un Revolver), dirigido e roteirizado por Julio Hernández Cordón, começa com a seguinte premissa: “Em um México sem lei, a população diminui porque estão desaparecendo as mulheres”. Ou seja, parece que vemos um mundo pós-apocalíptico, onde as mulheres praticamente sumiram e só restaram os homens. Assim, a heroína da história e a narradora é Huck (Matilde Hernandez), uma garota que vive com seu pai cuidando de um campo de beisebol de propriedade de traficantes.
E Huck não deveria estar ali, pois apesar de ser uma garota de pouco mais de dez anos, é mulher, tornando-se uma espécie de atração para os homens. Sua mãe e sua irmã foram levadas pelos traficantes e não se sabe se estão vivas e escravizadas ou mortas. O pai, Rogelio (Rogelio Sosa), é um viciado que se vê obrigado a tomar algumas medidas radicais para proteger a menina. Ela usa o cabelo curto, só veste roupas masculinas e uma máscara do Hulk. Além disso, vive acorrentada e tem de se esconder sempre quando os membros do cartel surgem no campo de beisebol.
Huck só encontra um pouco de paz quando consegue usufruir de pequenos momentos de aventura ao lado de Rafa (Ángel Rafael Yanez), Tom (Wallace Pereyda) e Ángel (Ángel Leonel Corral), trio de garotos órfãos que vivem nas cercanias, e que desejam recuperar o braço de um deles, arrancado como punição por roubo.
O filme é pesado, e apesar do bom desempenho da pequena Matilde Hernández, Huck não é cativante. Pelo contrário, a garotinha por vezes é extremamente irritante, fazendo com que nos irritemos com ela. E é frequente isso em filmes: um adulto chega para uma criança e diz - fulano, não saia daqui de jeito nenhum. O que faz a criança na cena seguinte? Abandona o local, colocando todos e ela própria em risco. E isso Huck faz o tempo todo no longa, mostrando extrema estupidez e teimosia, sendo incrível que consiga sobreviver à presença dos traficantes.
Duração: 1h30
Cotação: regular
Chico Izidro
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