quinta-feira, dezembro 08, 2016
"Lampião da Esquina"
O documentário "Lampião da Esquina", dirigido por Livia Perez, revisita o Brasil do final dos anos 1970, quando o clima opressor no Brasil por causa da ditadura militar, que já durava mais de uma época, sufocava a todos, principalmente a comunidade homossexual brasileira.
Então em 1978, época pré-Aids, um grupo de intelectuais e jornalistas criou o jornal alternativo "Lampião da Esquina", inspirado nas publicações Gay Sunshine, dos Estados Unidos, e o Pasquim, do Brasil. O Lampião levantava a bandeira da diversidade, com muito bom humor, mostrando o jeito de ser da comunidade guei, como eles grafavam.
Livia Perez conta a história do jornal através de várias entrevistas, principalmente com os criadores da publicação, entre eles o então repórter policial Aguinaldo Silva, hoje famoso pelas novelas que escreve para a Rede Globo, e outras personalidades homossexuais, como o cantor Ney Matogrosso, a cantora Leci Brandão e o cantor Edy Star, e Winston Leyland, editor do Gay Sunshine.
Os entrevistados relembram aqueles tempos, mas também fazem reflexões sobre o conservadorismo da época, as brechas na censura e o papel de libertação representado por um veículo dedicado aos gays, lésbicas e transexuais. Enfim, é mostrado um rico panorama daquele período.
Aos poucos, o jornal foi abrindo espaço para outros perseguidos, como mulheres, negros e índios. O Lampião focava bastante em temas como racismo, aborto, drogas e prostituição. A publicação, porém, foi minguado, devido a perseguições e desentendimentos entre seus colaboradores. Ele durou de abril de 1978 e durou por mais 37 edições, até 1981.
Duração: 1h25min
Cotação: ótimo
Chico Izidro
"Tamo Junto"
O jovem diretor Matheus Souza, apenas 28 anos, autor de obras como "Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida" e "Apenas o Fim", chega agora com a comédia quase infantio-juvenil "Tamo Junto". A trama é típica daquela de jovens que querem aproveitar a vida com muito sexo e bebedeiras.
O protagonista é Felipe (Leandro Soares), que termina um namoro de muitos anos para curtir a vida de solteiro. Só que ele acaba descobrindo que ser solteiro não está sendo nada fácil. Sua vida acaba saindo dos eixos, Felipe é expulso da casa onde morava com os amigos, que só conseguiam mulher porque a ex dele as apresentava para eles. Sem eira nem beira vai parar no apartamento do esquisito Paulo Ricardo (o próprio Matheus Souza).
Então Felipe e Matheus, cujo personagem é uma espécie de nerd e autista, saem para a noite para "caçar", mas de uma forma completamente desastrada. Ate surgir um romance meio platônico entre Felipe e Júlia (Sophie Charlotte), que vai desembocar num daqueles finais repletos de clichês dos filmes românticos.
A direção de Matheus Souza ten um bom início, com piadas interessantes sobre o universo da vida de solteiro. Leandro Soares convence como o protagonista. Já Matheus Souza é a mais pura caricatura do nerd. Um desastre de atuação.
Duração: 1h36min
Cotação: regular
Chico Izidro
"O Vendedor de Sonhos"
"O Vendedor de Sonhos", dirigido por Jayme Monjardim, é a adaptação cinematográfica do livro homônimo do escritor de livros de auto-ajuda Augusto Cury. E é um filme terrível.
A história é centrada no psicólogo deprimido Júlio César (Dan Stulbach), que numa reação inesperada, tenta cometer suicídio, mas é persuadido na última hora por um mendigo, chamado de Mestre (César Troncoso). O homem o convence a não pular do prédio, e além disso começa a mostrar uma outra realidade de mundo para Júlio César.
Os dois saem pelas ruas de São Paulo, convivendo com pessoas humildes, moradores de ruas, pivetes, idosos. Aos poucos é mostrado como Júlio César chegou ao limite, e também a vida pregressa do Mestre, de como ele foi parar na rua, maltrapilho, virando um guru para milhares de pessoas com suas frases feitas.
E é nisso que o filme se perde. Não há naturalidade. Tudo o que é dito é linguagem de manual de auto-ajuda, e saem da boca dos atores de forma forçada. Apesar disso, Dan Stulbach consegue transmitir um olhar angustiado de seu personage. Já César Troncoso (de O Banheiro do Papa), é um desastre. Atua no automático, e sua barba postiça estraga tudo. Ela muda de forma todo o momento. Uma tremenda falta de cuidado da produção.
Duração: 1h35min
Cotação: ruim
Chico Izidro
"A Última Ressaca do Ano" (Office Christmas Party)
"A Última Ressaca do Ano" (Office Christmas Party), dirigido pela dupla Will Speck e Josh Gordon, é daqueles filmes que lembram as destrambelhadas comédias juvenis dos anos 1980. A história se passa dentro da empresa de tecnologia Zenotek, em Chicago. A firma passa por dificuldades financeiras e corre o risco de ter vários funcionários demitidos, por decreto de sua CEO, a impaciente e zangada Carol Vanston (Jennifer Aniston, bem diferente dos tipos simpáticos e românticos que nos acostumamos ver da eterna Rachel, de Friends).
Além de tudo, ela decidiu pelo cancelamento da festa de Natal. Mas o diretor da empresa, o seu irmão Clay Vanston (T.J Miller), ao lado do diretor Clay Vanston (T.J Miller), decide fazer a festa e atrair o empresário Walter (Courtney B. Vance), que se investir na Zenotek, a tira do buraco.
Mas o que temos na sequencia é uma festa de Natal que sai do controle, com bebedeiras, muito sexo, som alto - muito hip hop e rap, com os personagens passando por situações constrangedoras. E nada de novidade nas cenas, que não tem nada de engraçadas. Momentos intermináveis.
Duração: 1h46min
Cotação: ruim
Chico Izidro
"BR 716"
Numa semana praticamente de filmes nacionais, que bom alento que é "BR 716", do octagenário diretor Domingos de Oliveira. Filmado em preto e branco, o título do longa faz referência a rua Barata Ribeiro, 716, em Copacabana, no Rio de Janeiro.
O diretor apresenta uma obra biográfica, onde apresenta o Rio de Janeiro em 1963. Naquele ano, os jovens da classe média carioca se reuniam no apartamento do jovem Felipe (Caio Blat, o autor-ego de Domingos de Oliveira), que sonhava em ser escritor. Felipe ganhou o imóvel do pai, vivido por Daniel Dantas, e além de não querer trabalhar, vivendo da renda de uma herança da avó, ele reunia os amigos para intermináveis festas regadas a uisque e muita música.
Separado, vive uma dor de cotovelo tremenda, pois a ex-esposa, Adriana (Maria Ribeiro) namora seu melhor amigo, João (Alamó Facó). As coisas só parecem melhorar quando ele conhece a bonita e sedutora Gilda (Sophie Charlotte), que sonha em ser cantora.
Mas todos vivem naquele apartamento de forma meio alienada. Lá fora, o mundo está despencando, com a ameaça dos militares em tomarem o poder - o que ocorreria em abril de 1964. Este momento é mostrado quando surge um personagem que tenta mostrar aqueles jovens que tudo não é apenas festa. "BR 716" é um belo retrato de uma época.
Duração: 1h30min
Cotação: ótimo
Chico Izidro
quinta-feira, dezembro 01, 2016
"Maresia"
"Maresia" é o primeiro filme de Marcos Guttmann, e baseado no romance “Barco a Seco”, de Rubens Figueiredo. Nele, temos uma atuação intensa do gaúcho Julio Andrade, interpretando dois papéis.
Num ele é Gaspar, avaliador de uma galeria de arte e obcecado pela obra do pintor Emilio Vega, de novo Julio Andrade. Investigando o trabalho do artista, desaparecido há anos, ele encontra Inácio Cabrera (Pietro Mario), que garante ter conhecido o artista em sua juventude. Mas Gaspar não leva a sério as histórias de Cabrera e não acredita em nada do que lhe apresentam como sendo a obra de Vega.
"Maresia" é mostrado em dois tempos. Em um deles é mostrada a investigação de Gaspar por Emilio e a outra apresenta o cotidiano do pintor e seu modo de vida totalmente desregrado. Vega mora em um barco, sobrevive trocando seus quadros, onde retrata a vida marinha, por comida e bebidas alcoólicas.
Julio Andrade é o grande destaque do filme, apresentrando uma atuação de camaleão, mostrando dois personagens tão distintos. Ele está tão bem, que parece não se tratar da mesma pessoa vivendo o cético Gaspar e o errante Vega.
"Maresia" é um filme de e sobre arte. Afinal, apressenta o mundo das artes plásticas, um tema de difícil trabalho cinematográfico. Além do que o trabalho de direção de Marcos Guttmann surpreende, construindo bem a alternância entre presente e passado sem grandes choques.
Duração: 1h30min
Cotação: bom
Chico Izidro
quinta-feira, novembro 24, 2016
"Elis"
É impossível conseguir mostrar a vida de uma pessoa em cerca de duas horas. Mesmo que esta pessoa tenha vivido apenas 36 anos, no caso aqui "Elis", direção de Hugo Prata. A cantora porto-alegrense mereceria uma série, de tantos eventos que protagonizou em sua carreira, iniciada aos 13 anos.
Só que o roteiro priorizou alguns eventos, deixou de fora personagens importantes, como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros. A trama já começa em abril de 1964, no dia do golpe militar e no momento que Elis, interpretada com maestria por Andréa Horta chegava ao Rio de Janeiro junto com o pai, Romeu (Zécarlos Machado) - na realidade toda a família dela se mudou para a cidade, onde ela começou a se destacar para o resto do país.
O filme mostra os momentos em que Elis começou a trabalhar em uma boate no Beco das Garrafas, onde teve como empresários Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado), que seria depois seu marido, Luis Carlos Miéle (Lúcio Mauro Filho) e o coreógrafo norte-americano Lennie Dale (Júlio Andrade), um de seus grandes amigos. Passa ainda pela consagração na TV Record, com o programa O Fino da Bossa, que apresentava ao lado de Jair Rodrigues. E as complicações que teve com a ditadura militar após ter criticado os militares, os chamando de gorilas durante excursão à Europa - os milicos vieram com tudo para cima de Elis, que teve de se render ao medo, e que renderia críticas de ativistas de esquerda, como Henfil.
"Elis" mostra principalmente seus relacionamentos com Ronaldo Bôscoli e Cesar Camargo Mariano (Caio Ciocler), os pais de seus três filhos. E evidente que termina com sua morte, numa overdose de álcool e cocaína, em 19 de janeiro de 1982.
Andréa Horta não canta como Elis, mas fez uma preparação vocal para pegar os trejeitos da cantora, que tem sua voz utilizada nas músicas do longa. Outro acerto é na excelente reconstituição de época, os anos 1960 e 1970 devidamente registrados em roupas, cortes de cabelo, móveis, carros. Pena o pouco tempo para tanta coisa a contar.
Duração: 1h55min
Cotação: ótimo
Chico Izidro
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