quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Faça-me Feliz

O inventor Jean-Jacques revela um segredo para a namorada Ariane (Frédérique Bel). Ele ficou conhecendo a cantada infalível e acabou sendo bem sucedido, mas não passou do bate-papo com a garota que viu num bar. Só que sua namorada acha que ele deve ceder aos instintos e transar com a desconhecida. Pois caso contrário, ficará mais tentado a trair e a relação deles poderá naufragar. Então Jean-Jacques parte para encontrar a tal garota do bar, Elisabeth (Judith Godrèche, de Albergue Espanhol), até descobrir que ela é nada mais, nada menos do que a filha do presidente da França. E uma carente compulsiva. Este é o mote do divertido e diferente Faça-me Feliz, direção de Emmanuel Mouret, que também interpreta o personagem principal. O filme demora a engrenar, e quando isso acontece prende a atenção e faz o público quase desmaiar de tanto rir. Faça-me Feliz tem o ritmo das comédias dos irmãos Marx, com gagues em que se usa muito pouco o diálogo. Mouret (a cara do comediante brasileiro Marcelo Adnet) sabe bem usar a expressão corporal. Ele bebeu muito em Groucho, Peter Sellers, Jerry Lewis e Mr. Bean. Preste bem atenção na festa no palácio presidencial, ondeJean-Jacques fica enrolado numa cortina. Sim, a festa é uma citação explícita ao clássico Um Convidado Bem Trapalhão, de Blake Edwards e com Peter Sellers. E as investidas noturnas de Jean-Jacques por Paris remetem claramente à Nova Iorque vista em Depois das Horas, clássico oitentista nonsense dos anos 1980, dirigido por Martin Scorsese.

Tão Forte e Tão Perto

Na manhã de 11 de setembro de 2001, eu dormia placidamente quando o telefone tocou e do outro lado da linha a minha namorada, berrou: !amor, estão atacando os Estados Unidos. Liga a televisão..."Ainda sonolento, obedeci ao tempo de ver a primeira torre gêmea pegando fogo. Logo depois um avião se estatelava na outra torre. Passei o resto do dia assistindo os acontecimentos em Nova Iorque. Não há como esquecer este dia. Todo mundo, acredito, sabe o que estava fazendo ou aonde se encontrava naquela data. Para os americanos, passou a ser conhecido como o segundo dia da infâmia que viveram. O primeiro foi o ataque japonês a Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. Bem, depois destas reflexões, vamos ao cinema. Que ainda deve um filme, se não grandioso, pelo menos original sobre o 11 de setembro. Até então, os mais conhecidos são As Torres Gêmeas, com Nicolas Cage, e Voo United 93. Numa visão um pouco distante, tem A 25ª Hora, de Spike Lee e com Edward Norton. O sensível Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry, mostra os reflexos do 11 de setembro no pequeno Oskar Schell (o ótimo Thomas Horn), que perdeu o pai numa das torres. Thomas Schell Jr. é interpretado por Tom Hanks. E nem deveria estar no local dos atentados no dia, mas foi lá por causa de uma reunião. Ao morrer, deixa a família desorientada. A esposa, vivida por Sandra Bullock, entra em depressão. E Oskar, que apesar de ter uma inteligência acima da média, é um daqueles garotos cheio de neuras, típico alvo de bullying na escola. Ele encontra nas coisas do pai uma chave, que o fará sair do esconderijo e partir para uma jornada particular por Nova Iorque. Afinal, qual o segredo que essa chave pode abrir? Sempre a pé, pois tem medo de andar nos transportes públicos, o garoto percorre a cidade, encontrando os mais variados tipos. Pessoas felizes, pessoas tristes, furiosas, doces... Sandra Bullock vive um papel totalmente diferente aqueles que nos acostumamos a ver, o da mocinha romântica ou da heroína. Aqui ela não etm vergonha de aparecer velha, descuidada. Outra presença marcante em Tão Forte e Tão Perto é o do veteraníssimo ator sueco Max Von Sydow, 83 anos, como o avô mudo de Oskar e que só comunica-se através de palavras escritas num bloquinho. E o diretor Stephen Daldry nem se importou em matar Tom Hanks.

A Invenção de Hugo Cadret

O pequeno Hugo Cabret assiste embevecido ao filme Viagem à Lua com sua nova amiga, Isabelle, que nunca havia estado num cinema. Os olhos dos dois brilham intensamente. A cena diz muito do que o fascínio da sétima arte provoca nas pessoas. A Invenção de Hugo Cabret, direção de Martin Scorsese, que inclusive faz uma ponta como um fotógrafo lambe-lambe, não mostra só a vida de um garoto órfão que vive numa estação de trem da Paris de 1931. Traz também a história do cinema desde os seus primórdios, quando os irmãos Lumière filmaram a chegada na estação, assustando aqueles neófitos espectadores dos estertores do século XIX. Entre eles o mágico Georges Mélies, que transformaria-se num dos primeiros cineastas a lidar com a ilusão. E não é o cinema mais do que ilusão? Hugo é vivido por Asa Butterfield, de O Menino do Pijama Listrado. Ele perdeu o pai, rápida aparição de Jude Law, num acidente e é adotado pelo tio, que trabalha acertando os relógios da estação de trens de Paris. E lá Hugo passa os dias e noites tentando consertar um robô, chamado à época de autômato, que esconderia um segredo de seu pai. Sua vida começa a transformar-se quando conhece Isabelle (Chloë Grace Moretz, de 500 Dias Com Ela e Kick-Ass). A garota possui, sem saber, as respostas que darão novo sentido ao destino de Hugo. Uma delas é o seu guardião, Papa Georgés (Ben Kingsley). Amargurado, ele parece odiar o menino, que o faz ter lembranças que desejava soterrar. Scorsese acertou a mão em cheio em A Invenção de Hugo Cadret. O trabalho é realizado em um meticuloso 3D, com Paris sendo recriada à perfeição. Não só a capital francesa. Em cena inesquecível, o diretor mostra o mundo dos sonhos, ou em outras palavras, os bastidores das filmagens de algumas obras de Georges Mélies, que realizou mais de 500 filmes em toda a carreira, mas acabou esquecido ao começar a I Guerra Mundial. Chloë Grace Moretz é uma das melhores revelações infantis dos últimos tempos, enquanto que o veterano Ben Kinsgley (Gandhi), como sempre, acaba roubando a cena, como sempre. E a agradável surpresa é o policial da estação ferroviária, interpretado por Sacha Baron Cohen, ele mesmo, o Borat. Cada cena em que surge é um deleite. Ele vai do perigoso perseguidor de crianças órfãs, que encaminha ao Juizado de Menores, ao tímido cara apaixonado pela florista. Enfim, A Invenção de Hugo Cadret é uma verdadeira ode ao cinema e os cinéfilos vão ficar maravilhados.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Reis e Ratos

Reis e Ratos parece ter um futuro promissor logo em sua cena inicial, quando dois irmãos meio matutos estão levando uma cantora famosa para se apresentar numa gincana em uma pequena cidadezinha do interior do Rio de Janeiro no início dos anos 1960. Minutos depois de eles chegarem ao local, vai tudo pelos ares. Corta. A bomba, pensa-se, seria obra dos comunistas. Mas não, na realidade era uma tentativa de um grupo de golpistas de eliminar a cantora, amante do presidente da República. E neste começo morre qualquer outra tentativa de o filme Reis e Ratos, de Mauro Lima, ter algo a dizer. Lima dirigiu Meu Nome Não É Johnny, que também teve dois dos atores de Reis e Ratos, Selton Mello e Rafaela Mandell, a cantora e namorada do diretor na vida real. A trama é interessante. O braço da CIA no Brasil, cujo agente é Troy Summerset (Selton Mello), que trabalha no Rio de Janeiro sob o disfarce de um dono de uma sapataria, planeja derrubar o presidente da República, que estaria levando o Brasil aos braços do comunismo. Troy se une ao Major Esdras (Octávio Müller), militar de dir. Os três alcançam enorme sintonia, têm diálogos hilários, rápidos e rasteiros, e mais acentuados ainda por aquela voz meio anasalada de Mello, um americano sem nenhum sotaque. Mauro Lima tenta recriar o clima daquela época. Até consegue, através de uma cuidada reconstituição de época e belas imagens em preto e branco durante boa parte do filme, devido a um flash-back de Troy. E personagens interessantes, como a sedutora cantora Amélia (Rafaela Mandelli) e seu acentuado sotaque sulista, ou o sebento Roni Rato (Rodrigo Santoro, irreconhecível e totalmente despojado de glamour graças a uma forte maquiagem), e até mesmo o efeminado radialista Hervê (Cauã Reymond), que tem o poder de prever o futuro, mas que inexplicavelmente vira uma espécie de ninja a certa altura do filme. Então qual seria o problema de Reis e Ratos? O problema está no roteiro, confuso, tentando pegar carona nos filmes de espionagem da época da Guerra Fria, sem sucesso. Em determinado momento, Mauro Lima não consegue mais explicar nada, transformando Reis e Ratos num verdadeiro, como se diria à época, samba do crioulo-doido. Bem que no final todo mundo sabe no que deu. Os golpistas, não os atrapalhados deste filme, conseguiram o sucesso, derrubaram Jango e o Brasil se viu durante um período de trevas de 25 anos. Cotação: ruim Chico Izidro

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

À Beira do Abismo

Um ex-policial e agora fugitivo da polícia chega em um hotel de Nova Iorque, pede o breakfast, dá uma gorjeta de 100 dólares. E minutos depois está do lado de fora do prédio, ameaçando-se jogar 21 andares abaixo. À Beira do Abismo, do dinamarquês Asger Leth, é um thriller policial cujo iníco é promissor. Afinal, qual a motivação do policial Nick Cassidy, e que nome mais clichê, vivido por Sam Worthington (de Avatar e Fúria de Titãs), para se pendurar naquela altura e pensar em suicídio? Logo a polícia e os bombeiros encontram-se no local, para evitar que ele se jogue e se espatife na calçada - já atrolhada de curiosos e incentivadores do suicídio. "Pule, pule!", berram os transeuntes. "Adoro os nova-iorquinos", deboca Nick. A investigadora e negociadora Lydia (Elizabeth Banks, de Pagando Bem, Que Mal Tem?) é chamada para intervir. Descobrindo que a intenção real de Nick não é o de se matar. Na verdade, o objetivo do ex-tira é provar sua inocência na acusação de ter roubado um diamante de 40 milhões de dólares de um empresário escroque, David Englander (Ed Harris, de Polock). A acusação o fez passar dois anos na cadeia, da qual ele fugiu e foi parar no aldo do hotel. À Beira do Abismo põe mais uma vez em cartaz um dos maios recentes fantasmas dos norte-americanos, a crise financeira de 2008, comparada por muitos com a quebra da bolsa em 1929, motivo da Grande Depressão na década seguinte. Pena que da metade em diante, o filme perca o rumo. Deixa o suspense de lado, transformando-se numa trama comum, previsível e como momentos patéticos. Sem contar os vários furos no roteiro e erros de sequência. A história poderia ter sido mais valorizada. Cotação: regular Chico Izidro

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

A Separação

Em A Separação, direção de Asghar Farhadi, temos um Irã diferente daqueles que costumamos assistir nos filmes. Essa é uma obra urbana, retratando a classe média do país e seu descontentamento com o sistema político vigente e até mesmo tocando em tabus, como a religiosidade da população. A Separação começa com o pedido do divórcio de Simin (a bela atriz Leila Hatami) do bancário Nader (Peyman Moaadi). Ela conseguiu o visto para emigrar junto com a filha de 13 anos, Termeh (Sarina Farhadi, filha do diretor). Só que o marido tem de autorizar a viagem da menina e ele não quer e também rejeita a ideia de sair do Irã com elas, pois tem de cuidar do pai, portador do mal de Alzheimer. Contrariada, Simin permanece casada, mas vai morar com a mãe. E isso vai desencadear eventos quase trágicos para a família. Nader fica no enorme apartamento com a filha e o pai e contrata uma empregada, Razieh (Sareh Bayat), para cuidar do velho, senil. Razieh é uma mulher complicada para a cabeça mais ocidentalizada de Nader. Ela é muçulmana praticante, mora longe demais do emprego e não revela ao marido que está trabalhando na casa de um homem separado. E além disso está gravida, mas esconde este fato. Há uma cena que mostra bem como pensa Razieh. Ela tem de trocar a fralda do pai de Nader, mas como tocar num homem que não é seu marido? Acaba ligando para um religioso para sanar sua dúvida. A gravidez da empregada a obriga a procurar um médico numa emergência e a faz deixar o velho sozinho e amarrado dentro do apartamento, para que ele não caia da cama. Nader acaba encontrando o pai sozinho e desfalecido e acaba por demitir a empregada, que não aceita ir embora sem receber o pagamento. Os dois brigam e Razieh cai na escada, indo para o hospital. No dia seguinte, Nader é intimado pela polícia, acusado de ter provocado um aborto na empregada. E por isso pode ser preso. A Separação vira, daí em diante, um instigante trama de tribunal. Com as duas partes tentando mostrar quem está certo e quem está se afundando em mentiras. O mais chocante, porém, é a visão do marido de Razieh, Hodjat (Shahab Hosseini, sem dúvida a melhor atuação do filme). Irracional e intolerante (seria uma comparação com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad?), insiste em chamar Nader de assassino. Mas para ele pesa mais na questão não o fato de sua mulher ter abortado, mas sim o de estar trabalhando na casa de outro homem, mesmo que seja para ajudá-lo a pagar as dívidas. Enfim, Farhadi mostra dois lados de uma mesma moeda, dois Irãs, um que tenta avançar e outro que se esconde sob o radicalismo religioso. Cotação: ótimo Chico Izidro

Para Poucos

Você aceitaria dividir o seu cônjuge com outra pessoa? No ousado Para Poucos, do francês Antony Cordier, a questão vem à tona. Se americano fosse, o filme seria cheio de dedos. Pudico e moralista. Os franceses, e ainda bem, não tem esses pudores. Baseado explicitamente em Jules and Jim, Uma Mulher Para Três, de François Truffaut, Para Poucos coloca mais uma pessoa na cama. O feliz casal Rachel (Marina Foïs) e Franck (Roschdy Zem, de Fora da Lei e Dias de Glória), donos de uma pequena fábrica de bijouterias, conhece outro casal, Téri (Élodie Bouchez) e Vincent (Nicolas Duvauchelle). A sintonia entre eles é imediata e aos poucos ocorre o troca-troca, com Franck formando par com Téri e Rachel indo para os braços de Vincent. Eles adotam regras para manter o swing: uma é os novos casais estarem sempre separados, em locais diferentes. Outra regra é nunca comentarem o que fazem com o outro parceiro. E a última norma: se em determinado momento, um dos quatro não estar mais confortável com a situação, tudo acaba. Para Poucos é interessante também ao colocar em cena atores que não são bonitos. Gente normal, sem glamour. O problema é que a ousadia do filme começa a se tornar repetitiva e estéril, perdendo o questionamento inicial. Cotação: bom Chico Izidro

“DA MAGIA À SEDUÇÃO: FEITIÇO DO AMOR” (Practical Magic 2)

Fotos: Warner Bros. Pictures “Da Magia À Sedução: Feitiço de Amor” (Practical Magic 2) sai exatos 28 anos depois de "Da Magia à Seduçã...