quinta-feira, março 02, 2017

"Um Limite Entre Nós" (Fences)



Primeiro filme dirigido pelo ator Denzel Washington, "Um Limite Entre Nós" (Fences), é um filme baseado em peça teatral escrita em 1983 pelo dramaturgo estadunidense August Wilson, e trata das relações humanas, sonhos destruídos, racismo e conservadorismo. A história se passa nos anos 1950, e tem o próprio Denzel Washington no papel principal, o lixeiro Troy Maxson, casado com a guerreira e de certa forma submissa Rose (Viola Davis, excelente).

A trama praticamente ocorre dentro de apenas um cenário - o pátio da casa do casal, onde Troy está construindo uma cerca, daí o nome da peça. Ele é um homem amargurado, falante, que sofre por não ter conseguido se tornar um jogador de beisebol profissional, pois à época a liga não permitia a presença de negros. Ganha a vida como lixeiro e sua meta é se tornar motorista, para não precisar mais pegar com as mãos o lixo dos brancos. E assim ele tenta impedir a ascenção do filho, Cory (Jovan Adepo), que tem a chance de jogar futebol americano por sua escola. Mas se ele não pode, por que seu filho teria esse direito?

Troy acha que colocar comida na mesa para a família é o suficiente, se achando o dono da verdade, nunca escutando a mulher, Rose. Nem mesmo quando aparece dizendo estar esperando o filho de outra mulher. A expressão de Viola Davis é algo!

“Um Limite Entre Nós” tem em seu elenco, majoritariamente de atores negros, como seu ponto forte. Os diálogos também são impressionantes e mesmo com seu ritmo lento - afinal, foi gerado por meio de uma peça teatral - não nos faz tirar os olhos da tela.

Duração: 2h19min

Cotação: ótimo
Chico Izidro

"Logan"



Um dos melhores filmes de super-heróis dos últimos tempos, e que mostra um deles decadente, com a história se passando em 2029. "Logan", dirigido por James Mangold, é uma mistura de western e road movie futurista. Wolverine (Hugh Jackman) ou Logam o seu nome civil, trabalha como motorista de limusine na cidade de El Paso, na fronteira dos Estados Unidos com o México. Além disso, ele tem de cuidar do professor Xavier ((Patrick Stewart), que apresenta sinais de demência. E ainda por cima, os mutantes foram exterminados e há mais de 20 anos não surge mais nenhum na face da Terra.

É quando aparece em sua vida a menina Laura Kinney/X-23 (Dafne Keen), que parece ser muda e hostil. A garota está sendo perseguida por mercenários sob o comando de Donald Pierce (Boyd Holbrook, do seriado Narcos). Então Logan descobre que Laura tem poderes similares aos seus, garras que saem do corpo e esqueleto de adamantium - ela foi criada através de DNA de Wolverine, que passa a tentar salvar a menina.

Só que Wolverine está cansado de tudo, depois de mais de 180 anos de existência. Bebe sem parar, seu corpo já não se mostra mais resistente a ferimentos - as balas que recebe não são mais expelidos facilmente. Enfim, é um ser muito vulnerável. "Logan" é um filme que não poupa violência, com muitos corpos despedaçados, explodidos. E nenhum personagem está a salvo de uma morte cruel.

Patrick Stewart representa muito bem uma pessoa que sofre de uma doença generativa, com lampejos de lucidez. A boa surpresa é a garotinha Dafne Keen, no papel da pequena Laura, que fala-se, será a sucessora de Wolverine nos próximos filmes da franquia, já que este deve ser o último filme de Hugh Jackman no papel do herói mau-humorado e alcoolatra - o ator tem uma interpretação explendorosa,
com muita força e vigor. Um filmão.

Duração: 2h17min

Cotação: ótimo
Chico Izidro

"Estopô Balaio"



"Estopô Balaio", dirigido por Cristiano Burlan, é um documentário que mostra a realidade dos moradores do Jardim Romano, vila no extremo leste de São Paulo, e que fica às margens do Rio Tietê. Eles sofrem com frequentes enchentes em suas casas. O termo Estopô Balaio significa quando alguém está muito irritado ou estressado e solta tudo. E assim surge o grupo homônimo para mostrar as mazelas da localidade.

Os moradores mostram, no começo do filme, as enchentes de 2010, que danificaram várias casas, e levaram três meses para que as águas baixassem. O grupo Estopô Balaio passa então a dar voz a essas pessoas, através de peças, danças, músicas e poesia. O documentário, inclusive, mostra, apesar de ser o Jardim Romano uma vila de pessoas simples e vida difícil, é uma comunidade de muita riqueza cultural.

Todas as pessoas parecem se engajar nas atividades: as apresentações são feitas nas ruas e até mesmo nas sacadas das casas, onde todos têm voz e não têm vergonha de expor suas ideias e atitudes. Pessoas unidas e que sofrem com o descaso das autoridades - que não aparecem em nenhum momento. A voz aqui é do povo.

Duração: 1h18min

Cotação: bom
Chico Izidro

"Waiting For B."



Este é um documentário apenas para fãs da cantora norte-americana Beyoncé. Mas para outro tipo de espectador, é interessante tentar entender a motivação deste público por um ídolo que não tem nada de inovador, com músicas sem originalidade, coreografias chupadas da Madonna lá dos anos 1980....

"Waiting For B.", dirigido por Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel, mostra um grupo de pessoas acampado em frente ao estádio do Morumbi, em São Paulo, por dois meses, para assistir a um show de Beyoncé, em 2015. Esses fãs queriam ficar mais perto da grade e, assim, ficar mais perto da cantora.

O documentário apresenta um grupo de fãs, na maioria, 99% deles, gays, que tentam encontrar um lugar no mundo - sofrem rejeição da família por sua condição sexual. São pessoas como o cabelereiro Junnior Martins, Gabriela Electra, que faz bico como cover da diva, e Charlles Felipe, um empresário, que era o primeiro da fila no acampamento e mantinha a organização das barracas.

A cantora, em nenhum momento, aparece no filme - nem mesmo quando de seu show, já no final. Vemos a reação dos fãs, que choram, frenéticos, sem conseguir expressar o porque gostam de Beyoncé. Apenas para iniciados.

Duração: 1h11min

Cotação: regular
Chico Izidro

"Minha Vida de Abobrinha" (Ma Vie de Courgette)



"Minha Vida de Abobrinha" (Ma Vie de Courgette), direção de Claude Barras, é uma animação toda feita em stop-motion de massa de modelar, com um resultado impressionante. Baseado em livro homônimo de Gilles Paris, é um filme delicado, doce, e cheio de esperança. Na trama, o pequeno Icare, mas que prefere ser chamado de Abobrinha, vivendo com a mãe, alcoolatra e completamente negligente em relação a ele. Um dia, ela acaba morrendo e talvez Icare tenha certa culpa no incidente e isso lhe corrói intensamente.

Sem familiares próximos, Abobrinha acaba sendo levado para um orfanato, onde vai passar a conviver com a mais variada gama de crianças - elas são filhos de imigrantes africanos, de pacientes psiquiátricos ou de casais dependentes de drogas. Um deles decide praticar bullying com Abobrinha, mas aos poucos vai simpatizando com ele e os dois se tornam quase inseparáveis. Mas Icare começa a ter esperança na vida quando conhece outra orfã, Camille, por quem se apaixona.

Cheio de mensagens humanistas em seu pouco mais de 60 minutos, "Minha Vida de Abobrinha" é muito realista e rico de detalhes. O otimismo também está presente, na figura do policial que se afeiçoa por Abobrinha. Simples e lindo.

Duração: 1h06min

Cotação: ótimo
Chico Izidro

"Eu Não Sou Seu Negro" (I Am Not Your Negro)



O escritor James Baldwin (1924/1987) sofreu duas vezes. Por ser negro e por ser homossexual. Tanto que por nove anos deixou o seu Estados Unidos natal e foi morar na mais liberal Paris, na França. Acabou voltando, com saudade de coisas que só na América do Norte encontraria - o calor dos amigos, a comida de sua mãe. Mas também teve de encarar o racismo, violento nos anos 1960. Era amigo de três ícones pela luta contra o segregacionismo: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr.

Ele começou a escrever um livro sobre eles, Remember This House, mas escreveu apenas 30 páginas quando morreu, em 1987. O diretor Raoul Peck pegou o manuscrito e transformou no documentário "Eu Não Sou Seu Negro" (I Am Not Your Negro), onde usa imagens do escritor em suas participações de programas na TV nos anos 1960, num deles Baldwin diz, impressionante, que "talvez daqui a 40 anos o presidente dos Estados Unidos seja um negro", e também sua presença em protestos pelos direitos civis, ao lado de Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr., todos os três acabariam sendo assassinados.

"Eu Não Sou Seu Negro" (I Am Not Your Negro), narrado pelo ator Samuel L. Jackson, traz ainda imagens do século XIX e do começo e meados do século XX, onde a opressão contra os negros era impiedosa - fazendo ainda uma ponte com o que ocorre nos Estados Unidos na segunda década do século XXI, com as mortes de jovens negros nas cidades americanas. Assistindo ao filme, ficamos pensando como coisas assim puderam ocorrer na história da humanidade?

Duração: 1h35min

Cotação: ótimo
Chico Izidro

"Lion - Uma Jornada Para Casa" (Lion)



O tocante filme é baseado em uma história real, mostrada no livro “A Long Way Home”, de Saroo Brierley. "Lion - Uma Jornada Para Casa" (Lion), dirigido por Garth Davis, é mostrado em dois atos. O primeiro, transcorrido em 1986, mostra a vida do pequeno Saroo (Sunny Pawar), que com o irmão mais velho, Guddu (Abhishek Bharate), trabalhava juntando material reciclável para tentar ajudar a sustentar a casa. Ele morava num vilarejo para lá de miserável numa mais miserável Índia. No segundo acompanhamos Saroo (agora Dev Patel, de Quem Quer Ser Um Milionário) com 30 anos, na Austrália, com sua família adotiva, mas tentando resgatar o seu passado.

Saroo acaba se perdendo quando um dia, ao insistir acompanhar o irmão Guddu, que vai trabalhar à noite, acaba dormindo em um trem, e vai parar em Calcutá, a mais de 130 km longe de sua casa. Lá, sem falar uma palavra local, acaba sobrevivendo por sua esperteza - consegue escapar de pessoas que tentam pegar as crianças para transformá-las em escravas. E vai parar num orfanato, onde acabará sendo adotado por um casal de australianos - interpretados por Nicole Kidman e David Wenham – e também ganhará um novo irmão, Mantosh, um outro garoto indiano também adotado.

Já adulto e completamente adaptado a sua vida na Austrália, Saroo ainda sofre por não saber o que ocorreu com a sua família. Acompanhamos sua vida universitária e o namoro com Lucy, interpretada por Rooney Mara. E que o ajudaria na procura a seus familiares de sangue. Na realidade, foram duas namoradas que ajudaram o real Saroo na busca.

Um dos grandes méritos de "Lion - Uma Jornada Para Casa", é não ser apelativo, não forçar o choro fácil, nem mesmo quando um Saroo já adulto consegue encontrar, após quase três décadas, a sua mãe e irmã no longínquo vilarejo indiano, através do Google Maps.

As atuações de Nicole Kidman e Dev Patel são primorosas. Mas quem ganha o filme é o pequeno estreante Sunny Pawar, entregando um personagem interessante, com muito carisma.

Duração: 1h58min

Cotação: ótimo
Chico Izidro

CURTA-METRAGEM “REVERSO”, FILMADO EM VIAMÃO, DISPUTARÁ PRÊMIO EM LOS ANGELES

Fotos: CF Arte Nativa Curta “Reverso”, gravado em Viamão, é indicado em festival de cinema em Los Angeles. O filme foi produzido pela CF Ar...