quarta-feira, abril 27, 2016
“O Dono do Jogo”(Pawn Sacrifice)
Em “O Dono do Jogo” (Pawn Sacrifice), dirigido por Edward Zwick, é mostrada a história verídica do enxadrista norte-americano Bob Fischer, que teve o seu auge entre os anos 1960 e 1970, antes de se isolar do mundo. Ele é interpretado por Tobey Maguire. O filme começa nos anos 1950, quando Fischer, ainda garoto, descobre seu enorme potencial para jogar xadrez, logo traçando uma meta de desafiar todos os grandes jogadores da época, culminando com o embate com os soviéticos, os mestres da época, que vivia o auge da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.
Fischer é mostrado como um neurótico, cheio de tiques e confiante de que era vítima de teorias conspiratórias. Afinal, o período era de paranoia em todo o mundo, ainda mais com os americanos acreditando que os soviéticos estavam se infiltrando em tudo. O clímax do filme é a disputa pelo título mundial de xadrez disputado no começo dos anos setenta na Islândia. Ali Fischer mostrou toda a sua paranoia, reclamando de qualquer barulho, espirro, exigindo que as partidas fossem disputadas em uma sala vazia.
Apesar da boa reconstituição de época, ao assistir “O Dono do Jogo”temos a impressão de que as pessoas curtiam xadrez como curtem um jogo de futebol ou basquete, lendo tudo sobre o jogo e comentando as partidas como se discutissem o resultado da final da Copa do Mundo. Tudo bem, EUA e URSS estavam em uma tremenda disputa ideológica, mas fica meio fora do normal mostrar hoje os soviéticos como quase robôs, sem coração. Uma imagem muito retrógrada.
Mas as atuações são boas. Tobey Maguire, mesmo com sua cara de bebê, consegue retratar um homem paranoico, que abdicou da vida social para se aprofundar no xadrez. Liv Schreiber vive Boris Spassky, o jogador russo que era o oponente mais árduo de Fischer, também se mostra competente. E o diretor Edward Zwick consegue transformar as partidas de xadrez interessantes, dinâmicas, mesmo que elas sejam emotivas apenas para quem joga.
Duração: 1h55min
Cotação: bom
Chico Izidro
“Mogli – O Menino Lobo”(The Jungle Book)
“Mogli – O Menino Lobo” (The Jungle Book) é uma típica produção da Disney, com os heróis e vilões bem definidos. Dirigido por Jon Favreu (Homem de Ferro), tem efeitos especiais excelentes, sendo que o único ator de carne e osso é o menino Neel Sethi, que vive Mogli. O garoto foi criado por lobos numa selva na Índia, e que tem como grandes amigos um urso e uma pantera negra.
A ação começa quando o tigre Shere Khan descobre que existe um humano vivendo entre os animais. Então ele dá um ultimato aos lobos: ou eles se livram de Mogli ou sofreram a ira dele. Afinal, Khan afirma que o menino está fadado a crescer e se tornar um predador como todos os humanos.
O filme apresenta uma história simples, sem muitos floreios. Mas o que atrai é o trabalho digital. A floresta digital é muito, muito realista. A fotografia, por sua vez, é o diferencial das produções Disney, pois deixa de lado o colorido exagerado, focando mais em tons sombrios. E note bem, os animais são tão perfeitos digitalmente, que parecem ser de carne e osso. Enfim, Mogli funciona muito bem, não trazendo muito humor, aliás, quase inexistente. É até meio assustador. E as cenas impressionam o tempo todo.
Duração: 1h46min
Cotação: ótimo
Chico Izidro
DEZ ANOS
Há exatos 10 anos entrava na rede o www.sala-escura.blogspot.com. Uma década dedicada à sétima arte, com críticas cinematográficas disponíveis todas as semanas.
quarta-feira, abril 20, 2016
“A Segunda Esposa” (Kuma)
A exemplo do espetacular “Cinco Graças” (Mustang), o cinema turco mostra como a religião, pode ser nociva, principalmente para as mulheres, vivendo numa sociedade regida por costumes muçulmanos, totalmente retrógrados.
No caso de “A Segunda Esposa” (Kuma), direção de Umut Dag, é mostrado o drama da jovem Ayse (Begüm Akkaya). O filme começa com seu casamento no interior da Turquia com o jovem Hasan, que vive como imigrante na austríaca Viena. Após o enlace, eles irão viver na cidade europeia. Mas não acontece o que ela imaginava, pois ao chegar à Áustria, a garota descobre que na realidade ela será a segunda esposa de Mustafá, o pai de Hassan, e que já tem outros filhos, que a recebem com desconfiança, até mesmo antipatia e desprezo.
Mustafá já é casado com Fatma (Nihal Koldas), que está com câncer, aparentemente não tendo muito tempo de vida. Ou seja, Ayse foi levada para Viena para ser preparada para cuidar dos filhos do casal. E não tendo voz ativa na casa. Ela é humilhada, xingada, e tendo de cumprir com as obrigações de esposa com Mustafá, quase 40 anos mais velho do que ela.
O filme quase todo se passa no apertado apartamento da família turca em Viena, com seus corredores estreitos e paredes finas, onde parece que todos cuidam da vida um do outro, não havendo espaço para individualidades. O diretor, que é austríaco filho de curdos, dispensa os conflitos dos imigrantes na xenófoba Europa, se preocupando mais em mostrar o atraso da cultura muçulmana, que põe a mulher como um ser secundário, coadjuvante, obrigada sempre a andar com lenços tapando os cabelos, mesmo vivendo em uma cidade cosmopolita.
Duração: 1h33
Cotação: ótimo
Chico Izidro
“Em Nome da Lei”
“Em Nome da Lei”, dirigido por Sérgio Rezende, se passa na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, e mostra a história – baseada em fatos reais – de um juiz, Vitor (Mateus Solano), que chega numa cidadezinha fronteiriça no Mato Grosso, corrupta e com a economia quase toda baseada no tráfico de drogas.
Ao lado da procuradora Alice (Paolla Oliveira), e do policial Elton (Eduardo Galvão) decide acaba com o todo-poderoso do local, o empresário de fachada Gomez (Chico Dias), também conhecido como El Hombre. Ele controla todo o tráfico na fronteira e não hesita quando tem de matar quem o contraria.
“Em Nome da Lei” é uma produção eficiente, com boas cenas de ação e muitos personagens interessantes e até assustadores, como o capanga Hermano (Emilio Dantas), que parece ter saído daqueles filmes de cientistas malucos dos anos 1930 e 40, e o próprio Gomez, numa atuação ótima de Chico Dias. A obra, porém, peca em alguns diálogos forçados, principalmente alguns saídos da boca de Vitor (Mateus Solano está bem, mas por vezes parece tão forçado e exagerado). E seu romance com a procuradora Alice não funciona. Ele é mal explorado e sem sentido.
Duração: 1h55min
Cotação: bom
Chico Izidro
“No Mundo da Lua” (Atrapa La Bandera)
Esta produção espanhola, dos estúdios Telecinco, em termos de animação, não deixa nada a dever a Pixar e a Dreamworks. Mas para por aí. “No Mundo da Lua”, dirigido por Enrique Gato, naufraga e muito.
A história é centrada em Michael, um garoto de 12 anos, que faz parte de uma família de astronautas, que se verá as voltas contra um ganancioso empresário, que pretende desmentir que o homem tenha estado na Lua, para poder utilizar elementos naturais do satélite natural da Terra. Para impedir que o vilão chegue a Lua, a presidente dos Estados Unidos ordena que a NASA organize uma nova viagem ao satélite, mas como a corrida espacial está paralisada, os americanos têm de reaproveitar um antigo foguete. Para ativá-lo, a NASA terá de recorrer a veteranos astronautas, que sabem como operá-lo.
É a chance que Michael tem de reunir o seu pai e o avô, ambos sem se falar a 40 anos, por motivos que são explicados ao longo do filme. E por facilidades do roteiro, Michael e o avô acabam indo parar no espaço para combater o vilão. Ah, e a NASA já faz uniformes de astronautas para crianças e os deixa dentro das naves.
“No Mundo da Lua” só funciona para o público infantil, não sendo nenhum pouco atraente para adultos – a única graça é encontrar nos personagens homenagens a personalidades do meio artístico, como por exemplo, um faxineiro que é a cara de Stanley Kubrick. No mais, as falas são fracas, os personagens são caricaturais – o gordinho nerd e atrapalhado, o surfista bonitão, loiro e convencido, a garota esperta e descolada, a mãe compreensiva e paciente. Para crianças de 7 a 11 anos, e olha lá.
Duração: 1h35min
Cotação: ruim
Chico Izidro
“Amor Por Direito” (Freeheld)
“Amor Por Direito” (Freeheld), dirigido por Peter Sollett, é um filme para mentes abertas, pois traz como foco um casal de lésbicas lutando por seus direitos – não, elas não lutam pelo casamento gay, mas sim por igualdade. Julianne Moore quase repete sua personagem de Still Alice, onde ela é diagnosticada com Alzheimer. Aqui ela vive a policial Laurel Hester, que desenvolve um violento câncer nos pulmões. Laurel trabalha num pequeno condado de Nova Jérsei e acaba conhecendo a mecânica Stacie Andree (Ellen Page).
As duas logo engatam um relacionamento e acabam comprando uma casa. Vai tudo indo bem, as duas mantém o romance em segredo, afinal Laurel trabalha num ambiente extremamente machista e preconceituoso, até que acontece o pior. Laurel fica doente e é obrigada a se afastar para tratamento. Que não funciona. A policial, então, quer que quando morrer, Stacie seja beneficiária de sua pensão. Afinal compraram uma casa e esse seria o jeito de Stacie conseguir pagar as prestações, além de não ficar desassistida. O problema é que os vereadores locais, os tais freehelders do título original do filme, não querem apoiar a união homossexual e passam a negar as solicitações de Laurel.
Fica até um lugar comum elogiar a atuação de Julianne Moore, que vive com convicção a lésbica Laurel – o filme é baseado em fatos reais, ocorridos nos primeiros anos do Século XXI. Ellen Page está em seu habitat, ela é assumidamente homossexual e militante da causa LGBT, adotando aqui um gestual extremamente masculino. Também vale destacar o comediante Steve Carell como o advogado judeu e ativista gay Steven Goldstein, bastante afetado e trazendo muito humor a um filme de tema pesado. Já Michael Shannon vive o policial Dane Wells, parceiro de Laurel, sempre com uma cara desconfiada e mau humorada, que não esconde a tristeza pela policial ter escondido dele sua opção sexual e a apoiando desde o início, apesar de nadar contra a corrente.
“Amor Por Direito” acaba emocionando, por trazer uma história trágica, mas que ajuda a abrirmos mais nossas mentes e ver que todos somos iguais.
Duração: 1h44min
Cotação: ótimo
Chico Izidro
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