quinta-feira, maio 07, 2026

COLETIVO AUDIOVISUAL TV OVO COMPLETA 30 ANOS, MOSTRANDO QUE CINEMA É PARA TODOS

Texto: Homero Pivotto Jr
Foto: Oficina Olhares da Comunidade EMEF Adelmo Simas Genro / Nathália Arantes
O PENSAMENTO COMUM no meio audiovisual, de que ninguém faz cinema sozinho, tem suas razões para existir. A quantidade de atores envolvidos em uma produção é uma delas – são profissionais de diferentes áreas, da direção à maquinaria, passando por produção, câmera, áudio e tantos outros. Foi com essa ideia do fazer em conjunto que a TV OVO, coletivo audiovisual de Santa Maria, projetou-se por três décadas.
Iniciada como uma oficina de vídeo na periferia (Vila Caramelo), a entidade celebra mais um aniversário com inúmeras conquistas. Entre elas: ser ponto de cultura certificado pelo Ministério da Cultura (MinC) desde 2005; ter sido autora e colaborado com diversos tipos de produções – desde videoclipes, passando por curtas, documentários (seu carro-chefe) ou ficção, até um longa-metragem premiado –; servir de espaço contínuo na formação de adolescentes e jovens; e atuar como fomentadora do setor, principalmente, mas não apenas, na região central do Rio Grande do Sul. Porém, diferentemente de um filme, que registra cenas de um tempo que já se foi, a TV OVO joga os holofotes para o presente e segue em frente, com projetos em andamento no audiovisual, mas um em especial, que é a continuidade da obra do seu centro cultural: o Sobrado.
“Cada ação que a TV OVO faz, enquanto coletivo, que é como a gente trabalha, sempre busca melhorar o que está posto, e isso importa mais do que qualquer adversidade encontrada pelo caminho nesses 30 anos. Então, tem muita doação, muita falta de recurso, mas também não nos falta motivação para ir adiante, trabalhando com a comunidade”, pontua Marcos Borba, um dos fundadores do coletivo, que ingressou no grupo aos 16 ano. A data que marca a efeméride de 30 anos é 12 de maio. Nessa dia, às 15h, está agendada uma sessão especial na Câmara de Vereadores de Santa Maria em homenagem à TV OVO. Antes disso, em 8 de maio, ocorre o lançamento no YouTube do filme “Cartas de Felippe” (que busca recuperar a arte e a política do santa-mariense Felippe D’Oliveira, expoente da literatura do início do século XX), dirigido por Marcos Borba.
As atividades celebrativas estendem-se por todo 2026, com diferentes iniciativas. Estão na programação, por exemplo, exibições gratuitas e o lançamento no YouTube do documentário “Morada”, dirigido por Neli Mombelli (contemplado pelo Edital 002/2023 da Lei Paulo Gustavo da Secretaria de Cultura de Santa Maria) – obra que traz reflexões sobre pertencimento, direitos estudantis e as marcas que carregamos, e deixamos, nos lugares por onde passamos. Também está em processo de finalização a série “Rock do K7”, dirigida por Marcos Borba e Neli Mombelli, que conta a história de 10 veteranas bandas de Rock Gaúcho. Esse projeto, que une música e cinema, tem financiamento do Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul, Pró Cultura RS, Secretaria da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura e Governo Federal - Brasil: União e Reconstrução, bem como apoio da Locall e a Finish como produtora associada.
Durante o Festival de Gramado de 2025, a TV OVO recebeu uma das conquistas mais marcantes de sua trajetória e que também marca a história de Santa Maria: foi agraciada com o Kikito de Melhor Longa-metragem Gaúcho e de Júri Popular para “Quando a Gente Menina Cresce”, dirigido por Neli Mombelli, aprovado no edital SEDAC n° 01/2022 – FAC Filma RS – Financiamento Pró-cultura RS. O primeiro longa da TV OVO, que discute a primeira menstruação e acompanha um grupo de meninas que vive a transição da infância para adolescência em uma escola pública na periferia, também recebeu Menção Honrosa para o elenco feminino.
“Somos reconhecidos por nossos documentários de curta-metragem, sempre relacionados a temas sociais. Então, quando decidimos produzir um longa, foi um mergulho num formato diferente e novo para todos nós. O reconhecimento do filme pelos dois festivais mais antigos e tradicionais do país, que são o de Gramado e de Brasília, nos deu imensa alegria, já que esse tipo de janela é dificílima de acessar. E isso também aumenta a nossa responsabilidade, para que possamos seguir fazendo mais e cada vez melhor”, reflete Neli, que está na TV OVO desde 2009 e é a atual coordenadora geral.
Desde o início, na Vila Caramelo, quando gestada em meio ao movimento das rádios e TV’s comunitárias, a TV OVO pautou sua atuação cultural na educomunicação e na coletividade. Essa postura rendeu reconhecimento nacional por meio dos prêmios Escola Viva (2007), Selo Cultura Viva (2007), Ponto Mídia Livre (2010), Selo e Prêmio Cultura Viva (2011), Ponto de Memória (2013) e Culturas Populares (2019). Reforça, ainda, a relevância da entidade, o fato de ter se tornado Pontão de Cultura, em 2009. A certificação possibilitou parcerias, acesso a recursos financeiros e mais visibilidade para projetos.
Lar do cinema no casarão de 110 anos
A TV OVO fica em uma área anexa ao casarão histórico (construído em 1916) na esquina das ruas Floriano Peixoto e Ernesto Beck. O espaço, adquirido pelo jornalista Marcelo Canellas e com escritura doada à TV em 2016 – como presente pelas duas décadas de serviços prestados – deve tornar-se um complexo cultural. A proposta em andamento prevê transformar o local e o galpão no mesmo terreno em um centro voltado às artes, com ênfase para o audiovisual.
A primeira fase da restauração do Sobrado Centro Cultural captou recursos a partir da Lei de Incentivo à Cultura do Estado, o que permitiu fazer as primeiras intervenções na infraestrutura do casarão. No momento, parcerias com o poder público, por meio de emendas parlamentares, têm viabilizado a acessibilidade do prédio, com a construção de rampas de acesso, finalização de escadas, colocação de guarda-corpo e instalação de uma plataforma elevatória. As emendas foram direcionadas pelo vereador santa-mariense Werner Rempel e pelo deputado estadual Valdeci Oliveira. A partir dos avanços na obra proporcionados por esses recursos, será possível realizar as primeiras atividades abertas à comunidade no local.
“Temos nos dedicado a este projeto desde 2012. Ele é complexo e necessita de muitos recursos e de muitos profissionais de outras áreas, por se tratar de uma obra e de um bem tombado. Acreditamos no papel dele para dinamizar a circulação de bens culturais na cidade. E, também, por ser mais um espaço agregador de ideias e de ações que tenham a nossa identidade, bem como a formação de jovens no centro dos debates e das atividades a serem oferecidas”, pontua Denise Copetti, que integra a entidade desde 2007 e atua, sobretudo, na produção executiva.
Ainda há muito a ser feito para se chegar na execução final do projeto. Para isso, a TV OVO tem inscrito projetos em editais e buscado viabilizar a obra pela Lei Rouanet. A primeira etapa das melhorias estruturais, aprovada pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do Rio do Grande do Sul, está concluída. Essa parte contemplou reforma interna do casarão. Interessados em contribuir com a captação de recursos podem entrar em contato pelo e-mail sobrado@tvovo.org.
O projeto do Sobrado Centro Cultural prevê, no primeiro andar, um café para sediar a socialização de saberes, debates e mostras durante o happy hour. No mesmo piso, deve ser montada a Biblioteca do Audiovisual Sérgio de Assis Brasil (importante nome do segmento na região centro do Rio Grande do Sul), com acervo de livros e filmes de acesso gratuito para a população. Ainda no primeiro nível da edificação, o objetivo é alocar o museu da imagem e do som, com materiais brutos feitos pela TV OVO ao longo dos anos – e que é constantemente atualizado. Já no segundo andar, a ideia é uma sala de cinema com programação contínua voltada para lançamentos nacionais.
Foto: Fachada do Sobrado Centro Cultural/ Alice Pozzobon
O Sobrado Centro Cultural pretende fomentar o estudo, a discussão e a produção audiovisual também no prédio anexo. Nele, além de o segundo andar abrigar a futura sede da TV OVO, o terceiro conta com área para oficinas, workshops e coworking. No primeiro piso, a intenção é fazer um estúdio para produções de cinema e TV, que também pode ser utilizado para espetáculos, shows e saraus. E, no subsolo, outros dois estúdios menores estão nos planos: um para pequenas produções audiovisuais e outro voltado para a produção sonora.
História que daria filme
A TV OVO tem uma trajetória que renderia um bom roteiro, principalmente pelo lado social. Em 30 anos, desenvolveu inúmeros projetos e oficinas em comunidades periféricas e escolas públicas. Foram realizadas ações de formação, cineclube e núcleos de vídeo comunitário nos projetos Ponto de Cultura Espelho da Comunidade, em Santa Maria, e Pontão de Cultura FOCU em Pontos de Cultura do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Há, ainda, o projeto Por Onde Passa a Memória da Cidade que, desde 2008, recupera a história de pessoas, ruas, bairros e distritos de Santa Maria.
Merece destaque, ainda, o trabalho junto à Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss de Santa Maria (AVTSM), no qual a TV OVO colaborou na organização de espaços de discussões sobre a tragédia e registrou o desenrolar da busca por justiça. De parte desse processo, foi produzido o documentário “Depois Daquele Dia” (2018), dirigido por Luciane Treulieb, licenciado para o Canal Brasil em janeiro de 2023, e a série “Boate Kiss: a tragédia de Santa Maria “ (2023), com direção de Marcelo Canellas, para o Globoplay. Outro trabalho de destaque é a série documental “Nova Santa Marta”, com três episódios (Cidade de Lona, Cidade de Madeira e Cidade de Concreto), com direção de Paulo Tavares e Alan Orlando, que resgatam os 30 anos de uma das maiores ocupações urbanas da América Latina (contemplada pelo financiamento do edital 002/2023 da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Cultura de Santa Maria).
O tempo também permitiu a TV OVO construir pontes por meio de parcerias com TV Brasil, Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Canal Futura e TVE-RS. Há mais de uma década, a TV OVO atua em projetos pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) de Santa Maria voltados para a produção de documentários a respeito da memória local. Já são mais de 40 produções sobre culturas populares, saberes tradicionais, histórias de ruas, bairros, distritos e toda a sua gente. O currículo da TV OVO contempla ainda oficinas de realização audiovisual em escolas municipais, colóquios e workshops para ampliar o conhecimento e fortalecer a cadeia audiovisual.

“ERA UMA VEZ MINHA MÃE” (Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan)

Foto: California Filmes
“Era Uma Vez Minha Mãe” (Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan), com direção de Ken Scott, conhecido pelos sucessos “Meus 533 Filhos” e “De Repente Pai”, é um excelente filme de memórias. O longa é baseado na autobiografia do advogado francês Roland Perez, que nasceu com uma deficiência em uma das pernas que o impedia de andar. A obra faz uma homenagem à sua mãe, a judia marroquina Esther, que fez de tudo para garantir que ele tivesse um futuro brilhante mesmo diante das adversidades.
O filme tem seu início na Paris de 1963, quando Roland nasce, filho mais novo do casal de imigrantes Maklouf (Lionel Dray) e Esther (Leïla Bekhti). Ele nasce com o pé direito torto, e devido às condições da época, os médicos diagnosticaram que ele nunca andaria e nunca teria uma vida normal. Porém, a mãe, extremamente religiosa e apegada ao caçula, passou anos se dedicando para que o garoto pudesse andar, inclusive apelando para diversas orações, acreditando que poderia ocorrer um milagre. “Era Uma Vez Minha Mãe” atravessa décadas na vida de mãe e filho, relatando as conquistas e dificuldades do menino, a partir de uma visão íntima e acolhedora.
O filme apresenta um trabalho meticuloso de reconstituição de época, o que garantiu ao filme uma segunda indicação ao César (o Oscar francês), na categoria de direção de arte. A atriz Leïla Bekhti, conhecida por participações em filmes como “O Profeta” e “A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília”, foi indicada por sua performance ao César de melhor atriz. Roland é interpretado por vários atores, que o representam nas diferentes fases de sua vida, com destaque para Jonathan Cohen, de “Amanda” e “Enorme”, que o vive em sua idade adulta.
O elenco ainda tem Joséphine Japy, Lionel Dray, Jeanne Balibar e o jovem Milo Machado-Graner, de “Anatomia de uma Queda”. A cantora Sylvie Vartan, figura recorrente na vida de Roland, também faz uma participação especial, interpretando a si mesma. “Era Uma Vez Minha Mãe” é um filmaço.
Cotação: excelente
Duração: 1h42min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=CbY0YbD2BxM

“ECLIPSE”

Foto: Mercúrio Produções
“Eclipse”, filme nacional é dirigido por Djin Sganzerla, filha do cineasta Rogério Sganzerla (1946-2004), e nasceu depois dela tomar conhecimento de um caso real: o de uma mulher que descobriu que o próprio marido a difamava e ameaçava de morte em um fórum na internet. A partir desse ponto, Djin imaginou o encontro entre uma astrônoma grávida e sua meia-irmã de origem indígena — um encontro que destrava memórias reprimidas e expõe camadas ocultas de relações abusivas, no passado e no presente. Do choque entre ciência e ancestralidade, emerge uma jornada marcada por intuição, investigação e transformação.
Na trama, a própria Djin interpreta a astrônoma Cleo, é casada com Tony (Sergio Guizé), e fica sabendo da existência de uma meia-irmã, Nalu (Lian Gaia), de origem indígena e especialista em computação, e fruto de uma relação extraconjugal de seu falecido pai. Depois do choque inicial, as duas começam a conviver.
E enquanto espera os meses para dar a luz, Cleo começa a desconfiar de ações do seu marido, e pede ajuda a Nalu para investigá-lo nas profundezas da deep web, acabando por descobrir segredos terríveis do parceiro.
Protagonizado pela própria diretora, atriz com mais de duas décadas de carreira, o filme reúne ainda nomes conhecidos do público, como Sergio Guizé, que recentemente estrelou a novela “Êta Mundo Melhor!”, e Lian Gaia, da série “DOM” e da novela “Vai na Fé”.
“Eclipse” conta também com presenças fundamentais do cinema brasileiro, como Luís Melo, Selma Egrei, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce e a icônica Helena Ignez, mãe da diretora e uma das artistas mais revolucionárias do país.
“Ao tratar da relação entre mulheres e do convívio entre pessoas de diferentes origens, o filme ‘Eclipse’ reflete questões essenciais para o Brasil de hoje”, disse Marina Moreira Gama, superintendente da Área de Relacionamento, Marketing e Cultura do BNDES, uma das patrocinadoras do projeto.
Cotação: ótimo
Duração: 1h50
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=fSLoBKqtOIw

COLETIVO AUDIOVISUAL TV OVO COMPLETA 30 ANOS, MOSTRANDO QUE CINEMA É PARA TODOS

Texto: Homero Pivotto Jr Foto: Oficina Olhares da Comunidade EMEF Adelmo Simas Genro / Nathália Arantes O PENSAMENTO COMUM no meio audio...