quarta-feira, abril 29, 2026

“SALA-ESCURA - CINEMA POR CHICO IZIDRO” COMPLETA 20 ANOS

Então é isso, o “Sala-Escura, Cinema por Chico Izidro”, acaba de completar 20 anos – sim, duas décadas e mais de 2.500 análises de filmes. O projeto surgiu numa noite de sábado de 2006, como forma de poder falar de todos os filmes que eu assistia semanalmente, mas não encontrava espaço para todos nos veículos em que colaborava – a revista “Carta Capilé”, de São Leopoldo, e o programa “Cena de Cinema”, da Ipanema FM.
A partir de 2009, o “Sala-Escura” passou a dividir espaço com o blog “Cine CP”, criado por mim, e que contava ainda com Adriana Androvandi e Marcos Santuário. Mas desde a minha demissão do Correio do Povo em 2024, o “Sala-Escura, Cinema por Chico Izidro” voltou a ser meu espaço exclusivo para a publicação das críticas e resenhas.

“ZICO - O SAMURAI DE QUINTINO”

Foto: Vudoo Filmes
“Zico, o Samurai de Quintino”, dirigido por João Wainer, é um excepcional documentário, que homenageia plenamente o legado do craque Arthur Antunes Coimbra, o Zico, para o futebol brasileiro e também para o desenvolvimento do esporte no Japão.
O documentário mergulha na trajetória do craque, ídolo do Flamengo, do Kashima Antlers e com três participações em Copas do Mundo defendendo a Seleção Brasileira. O trabalho apresenta imagens raras, desde a infância até a fase adulta, registros de arquivo e bastidores inéditos. A produção mostra gols antológicos e conquistas marcantes, episódios pouco conhecidos da carreira, os desafios enfrentados ao decidir jogar no Japão e a construção de um legado e inspiração que ultrapassa gerações – a destacar os primeiros passos de Zico no futebol japonês no começo dos anos 1990, quando a estrutura do esporte na Terra do Sol Nascente era praticamente nula.
O filme traz depoimentos exclusivos e conversas com personagens-chave, ex-parceiros e fãs que se tornaram ídolos, como Júnior Maestro, Carpegiani, Carlos Alberto Parreira, Ronaldo Fenômeno, o radialista José Carlos Araújo, entre outros. Além deles, os três filhos de Zico e sua esposa, Sandra, visitam o vasto acervo pessoal do Galinho de Quintino. Ao equilibrar emoção, contexto histórico e análise esportiva, o filme dialoga tanto com quem acompanhou de perto a trajetória do camisa 10 quanto com novas gerações que continuam a descobrir a dimensão de sua influência dentro e fora dos gramados.
“Mais do que as conquistas e glórias do Zico, venho aprendendo com ele lições que vão além do futebol, como humildade, respeito e gentileza. Posso garantir que toda a equipe trabalhou com muita dedicação e afeto para construir um filme emocionante e repleto de informação”, disse o diretor João Wainer.
O produtor André Wainer complementou, lembrando que a proposta do projeto é colocar Zico no lugar e na dimensão que ele merece. “Trabalhamos não apenas para trazer elementos novos, mas para usar esses elementos na construção de uma narrativa inédita sobre o Galinho. Gostamos de dizer que este é um filme de não ficção, apesar de muitas jogadas do Zico parecerem fora da realidade”, destacou o produtor.
As filmagens tiveram início em 2023, quando Zico completou 70 anos, e passaram por locais emblemáticos como a casa do jogador em Quintino, ruas do Rio de Janeiro e um set especialmente montado para receber convidados. O projeto também percorreu o Japão, país onde ele se tornou um pioneiro e desenvolvedor do futebol, do time operário do Sumitomo à seleção, de quem foi técnico.
A produção reúne ainda um vasto acervo pessoal, com dezenas de fitas VHS, filmes Super-8 e objetos históricos, entre eles, a camisa 10 usada na final do Mundial de 1981 e um caderno com anotações detalhadas de gols ao longo da carreira.
Cotação: ótimo
Duração: 2h
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Mwt21FirOjA

“O DIABO VESTE PRADA 2” (The Devil Wears Prada 2)

Foto: 20th Century Studios
“O Diabo Veste Prada 2” (The Devil Wears Prada 2), chega exatamente 20 anos depois do primeiro filme, com David Frankel novamente na direção, e trazendo os mesmos protagonistas, Miranda Prestley (Meryl Streep), Andy Sachs (Anne Hathaway), Emily (Emily Blunt) e Nigel (Stanley Tucci), mas agora tendo as adições de Lucy Liu, Kenneth Branagh, Simone Ashley e Lady Gaga.
A primeira parte mostrava a recém formada Andy tendo de conviver com uma chefe abusiva, Miranda, na prestigiada revista de moda nova-iorquina Runway, baseada na real Vogue. Obra baseada no livro de mesmo nome escrito por Lauren Weisberger.
Agora, duas depois, Andy é uma jornalista conceituada e premiada, que ao receber mais um prêmio, descobre que foi demitida de seu jornal, assim como todos os colegas. Vivendo num apartamento precário em Nova Iorque, é convidada pelo dono da Runway, por Irv Ravitz (Tibor Feldman), a assumir um cargo de chefia na revista, para apagar uma crise provocada pela editora-chefe Miranda Priestley.
Ela volta para a publicação, verifica que o mundo mudou muito nestes 20 anos, mas Miranda segue praticamente sendo a quase mesmo chefe carrasca, um pouco mais contida, para evitar processos – nisto o roteiro, escrito por Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger acerta -, pois agora assédio moral é crime grave.
Então, Andy passa a tentar ver seu trabalho reconhecido e prestigiado por Miranda, que faz de conta que não a conhecia...e o personagem de Anne Hathaway (atriz que parece não ter envelhecido um dia), nem parece ter vinte anos de uma carreira bem sucedida, agindo como uma mulher insegura, enquanto procura validação por suas matérias e encontra um par romântico totalmente sem química no personagem Peter (Patrick Brammall). E não faz nenhum sentido Andy se esforçar além da conta para tentar manter o emprego de Miranda, uma personagem escrota, maligna, que só pensa em seus interesses, não se importando com as pessoas ao seu redor.
Porém, outro acerto do roteiro é em tratar da crise em que passa o jornalismo, com as publicações impressas sendo extintas, com o predomínio do material online, as demissões frequentes dos jornalistas, que perdem espaço cada vez maior para influencers, a superficialidade nas matérias e a cada vez maior influência de anunciantes no que deve ou não ser publicado. No mais, o filme é uma avalanche de personagens vazios, preocupados com vestidos, sapatos e bolsas.
“O Diabo Veste Prada 2” acaba sendo cansativo, com personagens caricatos – tem até o gordinho que sofre bullying de uma colega, a melhor amiga conselheira, o namorado sem noção e burro de Emily (Emily Blunt), e a bilionária que surge do nada para salvar o dia.
Podem me chamar de antipático, mas não consigo ter empatia por nenhum dos dois filmes, nem pelos personagens, todos me parecendo vazios.
Cotação: ruim
Duração: 1h58
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=r3_gZDsy1iQ

terça-feira, abril 21, 2026

“MICHAEL”

Foto: Universal Pictures.
Dirigido por Antoine Fuqua, “Michael” pretende trazer uma cinebiografia de um dos maiores artistas da história, o cantor Michael Jackson (1958-2009). Porém, com produção da família do astro, a trama transforma a obra em longa-metragem quase chapa-branca, ou seja, evita entrar mais fundo na conturbada história do criador de “Thriller”, o disco mais vendido da história com mais de 100 milhões de cópias.
Praticamente toda a família de Michael está envolvida na história, inclusive um dos sobrinhos do astro, Jaafar Jackson, interpreta o cantor. E aqui um fato evidente: o garoto merece concorrer ao Oscar por sua interpretação convincente. O diretor é o competente Antoine Fuqua, conhecido por dirigir “Dia de Treinamento” (2001), que rendeu um Oscar de melhor ator para Denzel Washington, a quem dirigiu na trilogia “O Proteror”.
“Michael” conta a história de Michael Jackson desde o começo da carreira em Gary, Indiana, onde o astro era severamente cobrado pelo pai, Joe Jackson, interpretado por Colman Domingo (Fear of The Walking Dead), uma pessoa tirânica e que tentou, de forma invejosa, deter o sucesso individual do filho. O filme segue com o crescente sucesso do garoto, que antes dos 20 anos, já era um astro mundial, à frente do grupo Jackson 5, formado ao lado dos irmãos.
O filme mostra que Michael Jackson era uma pessoa que se negou a crescer, assim como Peter Pan, livro que acompanha o astro, que vivia cercado de animais e de ajudar crianças. Porém, o longa-metragem evita tocar em assuntos polêmicos, inclusive passa rapidamente na questão de o cantor sofrer de vitiligo, de ser viciado em cirurgias plásticas e das acusações de pedofilia, e do vício em remédios. Além disso, “Michael” se mostra ansioso e pula eventos cronológicos, como por exemplo, focar no disco “Off the Wall” como se fosse o primeiro solo dele, sendo que já havia lançado vários discos antes sem contar com a participação dos irmãos.
Porém, acerta na reconstituição de “Thriller” (1982), disco que é um marco da música mundial, com hits como "Beat It", "Billy Jean", e "Thriller", mas esquece de citar as importantes participações de Eddie Van Hálen (1955–2020) e Vincent Price (1911-1993) na construção da obra.
O filme é cuidadoso em mostrar as feituras das coreografias, as filmagens dos videoclipes de "Beat It" e "Thriller", e a pressão de sua gravadora, a CBS, para que os trabalhos passassem a ser veiculados pela emergente MTV, que se negava a colocar no ar o trabalho de artistas negros – Michael Jackson quebraria esta barreira na primeira metade dos anos 1980.
Quem viveu nos anos 1980 se lembra da febre que era Michael Jackson, mesmo quem não curtia seu trabalho, sabia de sua importância. Por isso, outro erro do filme é esquecer do fenômeno que foi “We Are The World”, a música e videoclipe para arrecadar fundos para a fome no continente africano. Simplesmente “Michael” não dispensa uma simples menção, uma frase ao evento, liderado pelo astro pop.
Porém, perde muito tempo mostrando shows de Michael, sua fixação pelos animais que criava e o conflito com o pai, numa interpretação caricata de Colman Domingo, que geralmente entrega um ótimo trabalho. Além dele, o filme tem Nia Long como a mãe Katherine Jackson, Jessica Sula como a irmã LaToya e Miles Teller como o empresário John Branca. O estreante Juliano Valdi vive Michael na infância.
"Michael" falha em retratar um dos maiores astros da história, morto precocemente aos 50 anos, com medo de macular sua trajetória incrível. A música dele supera qualquer problema que ele poderia apresentar. O filme ainda mostra apenas um recorte de 30 anos de sua vida, parando em 1988. Nos anos 1990, o astro começaria a perder popularidade, protagonizando incidentes patéticos com os casamentos, um deles com a filha de Elvis Presley, Lisa Marie Presley, e tendo seus dois filhos, gerados por inseminação artificial. Mas sua importância para a cultura pop é inegável.
Cotação: regular
Duração: 2h08
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=HZZgZUU9XIc

quarta-feira, abril 15, 2026

“A MALDIÇÃO DA MÚMIA” (Lee Cronin’s The Mummy)

Foto: Warner Bros.
“A Maldição da Múmia” ((Lee Cronin’s The Mummy), dirigido por Lee Cronin, é mais um filme da franquia sobrenatural, que tem seu começo lá em 1932, com “A Múmia”, estrelado por Boris Karloff. Porém, este novo longa-metragem tem um diferencial em relação aos seus pares, pois é uma obra que realmente foca no terror, com muito sangue, cenas repugnantes e deixando praticamente o humor (muito usado nos filmes dos anos 2000, protagonizados por Brendan Fraser) de lado.
Na trama, uma família americana que mora no Egito, o pai jornalista, Charlie (Jack Reynor) e a enfermeira Lari (Laia Costa), sofrem com o rapto de sua filha pequena, Katie (Natalie Grace). Oito anos depois e já morando em Albuquerque, no Novo México (EUA), e com uma outra filha, eles recebem a notícia de que Katie foi encontrada no deserto, dentro de um sarcófago que estava sendo transportado por um pequeno avião, que caiu, matando seus pilotos.
A garota, agora uma adolescente, volta ao convívio dos pais. Porém, seu corpo está destroçado, coberto de chagas, os membros retorcidos, depois de anos de aprisionamento e sofrimento. Só que Katie carrega dentro de si um demônio – sim, aqui a múmia é mais um demônio malévolo, disposto a se libertar e matar todo mundo ao seu redor.
“A Maldição da Múmia” é um filme tenso, repleto de referências, como por exemplo “A Profecia”, “O Silêncio do Lago”, “Fome Animal” e “A Morte do Demônio”, O diretor não poupa cenas de vômitos, pele arrancada, sangue jorrando à profusão e inocentes possuídos e trabalhando em prol do demônio – a produção escorrega no humor somente em determinada cena onde aparece a avó extremamente católica.
O filme poderia ser mais curto – ele ultrapassa as duas horas -, e tem alguns momentos personagem idiota, como por exemplo, por que eles insistem em ficar no escuro, tendo o interruptor do lado? Mas são detalhes. No final, “A Maldição da Múmia” surpreende, assusta e se mostra uma obra digna do gênero.
Cotação: bom
Duração: 2h17min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=fUANevKVe78

“O ESTRANGEIRO” ((L’Étranger))

Foto: California Filmes
Baseado no clássico homônimo da literatura mundial escrito pelo franco-argelino Albert Camus (1913-1960), “O Estrangeiro” ((L’Étranger), é dirigido por François Ozon. A obra já havia ido para as telas em 1967, pelas mãos de Luchino Visconti e com Marcelo Mastroianni como o protagonista.
Esta nova versão, filmada toda em preto e branco, é estrelada por Benjamin Voisin, parceiro de Ozon em “Verão de 85”, que aqui vive o jovem Meursault, um francês que vive em Argel, na Argélia dos anos 1930. Ele trabalha em um escritório, mas pede uns dias de folga depois que recebe a notícia de que sua mãe, que vivia em um asilo, morreu.
Meursault vai ao funeral, onde não demonstra sentimentos pela perda, e depois, passa os dias a vagar por Argel com a recente namorada, Marie (Rebecca Marder). Vão ao cinema, bares, à praia, quando ocorre a tragédia. O jovem acaba, depois de um desentendimento, assassinando um jovem árabe, à sangue-frio.
O episódio provoca sua prisão, e um julgamento. A visão da acusação não é apenas no assassinato, mas também a postura e a personalidade do jovem, visto como uma pessoa indiferente a tudo e todos. Ele não parece se importar nem com o destino dele mesmo...
O filme é reflexivo, tanto que em quase toda a sua primeira parte, não existem diálogos, apenas o dia a dia de Meursault, e apenas uma trilha sonora tensa – aliás, nos créditos é tocada a sensacional “Killing an a Arab”, hit de 1979 do The Cure. Aliás, outro destaque de “O Estrangeiro” é sua excepcional reconstituição de época...tudo é bem cuidado, desde as roupas, os carros, os penteados.
Cotação: ótimo
Duração: 2h03
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=7e3DoPyFH0M

“PINÓQUIO”

Foto: Paris Filmes
"Pinóquio" é uma adaptação live-action do conto de Carlo Collodi, dirigida pelo russo Igor Voloshin. A produção russa é focada em nostalgia e moralidade, mas trazendo muitas mudanças em relação ao conto lançado em 1883.
O filme é baseado numa versão russa conhecida como Buratino, inspirada na obra de Aleksey Tolstoy (1936). A história todo mundo conhece, do boneco de madeira construído pelo artesão Gepetto, que fez um pedido e uma fada deu vida ao marionete – que podendo andar e falar, passa a desejar ser um garoto de carne e osso.
Nesta versão, não existe a Fada Azul, nem o Grilo Falante. Ela é substituída por uma tal dona tartaruga, enquanto que o grilo é trocado por três baratas, e uma delas é a narradora da história. Além disso, Pinóquio não mente, ou seja, seu nariz não cresce. E no final, o boneco não se transforma em um menino de verdade, permanecendo de madeira.
Não bastasse isso, o filme é um emaranhado de técnicas de filmagem, passando a grande sensação de que ele foi todo gerado por IA (inteligência artificial). “Pinóquio” acaba sendo cansativo, com suas longas cenas de canto e dança, alterações da história. Tudo soa tão artificial, que decepciona fortemente.
Cotação: ruim
Duração: 1h42
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=5uDJGeb9FME

“O CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO”

Foto: Ronaldo Nunes
“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” é o primeiro longa-metragem do cineasta cearense Rosemberg Cariry. O filme é um marco no cinema brasileiro, sendo também considerado o primeiro documentário em longa-metragem realizado no estado do Ceará.
Ele foi lançado originalmente em 1986, e volta agora, 40 anos depois, marcando os 50 anos de carreira de Rosemberg Cariry e os 100 anos da criação da Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, liderada pelo beato José Lourenço. A comunidade foi um marco de construção social solidária no Ceará até sua destruição violenta em 1936. O massacre foi perpetrado por uma conjunção reacionária de forças políticas e do clero conservador, valendo-se do braço armado do Estado, que invadiu o território em setembro daquele ano. A perseguição aos remanescentes estendeu-se até o bombardeio aéreo dos acampamentos de refugiados na Serra do Araripe, em maio de 1937, um período de intensa agitação nacional que antecedeu a instalação da ditadura do Estado Novo, por Getúlio Vargas.
O Caldeirão é um lugar real e simbólico que, embora destruído, renasce agora como patrimônio da história, da luta e da cultura do povo brasileiro. A violência policial resultou em muitas vítimas, com estimativas que variam para além de mil camponeses mortos, em um dos episódios mais trágicos da história do Nordeste brasileiro. Essa destruição de uma comunidade camponesa igualitária é frequentemente comparada ao massacre de Canudos, embora em menor escala, representando a repressão da elite brasileira contra movimentos sociorreligiosos que buscavam autonomia e vivência comunitária no sertão, fugindo da exploração dos latifúndios.
Com roteiro escrito por Cariry e Firmino Holanda e fotografia de Ronaldo Nunes, “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” reuniu depoimentos raros e inéditos de sobreviventes e até de algozes do massacre da comunidade. “Durante décadas, foi um tabu falar desse episódio tão trágico, até que um grupo de jovens cearenses resolveu fazer um filme, quando o país vivia o seu processo de redemocratização. Graças a esse resgate histórico, a memória da comunidade não se perdeu; ao contrário, continua a pulsar, despertando reflexões e inspirando movimentos de organização comunitária, sobretudo no âmbito do Movimento Sem Terra. Considero o filme O Caldeirão a conquista de uma geração que ousou fazer cinema em uma época em que, no Ceará, quase nada apontava para esse caminho”, afirma Cariry.
Cultuado e reconhecido por seu pioneirismo e por sua experimentação insubmissa, o filme permanece como um documento vivo e uma experiência estética singular, unindo a narrativa histórica à força e à diversidade das culturas populares em uma construção narrativa ousada para a época. Trata-se de um registro inestimável entre o tempo da história e o tempo da arte, reafirmando o compromisso de vida do cineasta com o resgate das memórias profundas do povo cearense e nordestino.
Duração: 87 minutos
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=TkW-MgpcoGI

quinta-feira, abril 09, 2026

“OS ESTRANHOS 3 – O CAPÍTULO FINAL” (The Strangers – Chapter 3)

Foto: Paris Filmes
“Os Estranhos 3 - Capítulo Final” é o desfecho da trilogia de terror dirigida por Renny Harlin, iniciada em 2024. A trama foca em três psicopatas mascarados que realizam um jogo de perseguição, atacando e matando pessoas que, desavisadamente, põem os pés na pequena cidade de Venus.
Este terceiro filme tem como foco o embate entre Maya (Madelaine Petsch), a única pessoa que conseguiu sobreviver a ataques, e os assassinos, que continuam a persegui-la. E desta vez, é explicado o envolvimento das autoridades locais com os seriais killers – um deles é filho do xerife local, que acoberta os crimes, depois de ter feito um acordo com os criminosos: eles deveriam matar apenas forasteiros, evitando assassinar pessoas da região.
O filme começa com uma volta no tempo, em um crime praticado pelos mascarados em 2021, quando atacam uma garota em um quarto de hotel, para depois ir explicando a motivação dos assassinos.
Então “Os Estranhos 3 - Capítulo Final” começa a focar em Maya, fugindo de seus perseguidores. E a coisa vira quase um Sexta-Feira 13, com um dos assassinos parecendo Jason, porém com uma máscara feita de um saco de batatas e um machado na mão. E os dois antagonistas levam facadas, machadadas, pancadas na cabeça, caem em buracos, e não morrem. Sendo que o mascarado ainda surge nos lugares mais improváveis, do nada...
Não fosse o suficiente, o roteiro ainda tenta sugerir em determinado momento que Maya, poupada pelos assassinos, assuma o lugar de uma das figuras mascaradas, que morrera minutos antes. Mas logo a ideia é abandonada, pois não faria o mínimo sentido.
E
o final é total anticlímax...fica evidente que faltou paciência para os roteiristas, e tudo é resolvido rapidamente, transformando um filme que já não tinha ritmo e criatividade, em uma obra ruim e sem nenhuma identidade. Fuja.
Cotação: ruim
Duração: 1h31min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=ghTZuL6CW6g

domingo, abril 05, 2026

“O Drama” (The Drama)

Foto: Diamond Filmes
“O Drama” (The Drama), direção e roteiro de Kristoffer Borgli, tem gerado muita polêmica nos Estados Unidos, por tocar em um assunto muito dolorido para os americanos: o tiroteio em escolas. E uma pergunta: vale a pena contar seus segredos mais íntimos para as pessoas que você ama?
A trama mostra o casal apaixonado formado por Emma Harwood (Zendaya) e Charlie Thompson (Pattinson), que está nos preparativos finais para se casarem. No entanto, na semana anterior ao grande dia de suas vidas, durante um jantar, uma simples brincadeira entre amigos coloca em xeque o relacionamento de Emma com seu noivo e com os padrinhos: cada um tinha de confessar as piores coisas que já fizeram na vida. Zendaya e Robert Pattinson mostram excelente química em tela.
E Emma solta um segredo terrível, deixando Charlie e todos em choque. A noiva revela ter planejado, quando adolescente, um tiroteio na sua escola. Mas mais do que apenas pensar no ato terrorista, ela chegou a treinar tiro e levar o rifle do pai para a aula, desistindo do crime na última hora.
A revelação coloca em risco toda a confiança e o amor entre os noivos, e traz à tona o ódio da madrinha, Rachel (Alana Haim), cuja irmã ficou paraplégica após levar um tiro durante um atentado.
Assim, “O Drama”, que tem uma montagem onde a história é contada com idas e vindas no tempo, passa a refletir o quanto uma pessoa pode permanecer ou não ao lado de alguém que parecia tão normal, mas esconde algo sinistro em seu ser.
E o filme ainda relembra incidentes trágicos em escolas, sendo o mais lembrado o massacre de Columbine, no Colorado, em 1999. Na ocasião, dois estudantes, Eric Harris e Dylan Klebold, de 18 e 17 anos respectivamente, mataram 12 alunos e um professor, e feriram mais de 20 em uma escola, antes de se matarem.
Então, você perdoaria seu par se ele confessasse algo tão cruel?
Cotação: excelente
Duração: 1h46min
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Hn8YHkQXiS0

“RUAS DA GLÓRIA”

Foto: Syndrome Filmes
“Ruas da Glória”, com direção e roteiro de Felipe Sholl, é um filme gay, ambientado no bairro da Glória e no Centro do Rio de Janeiro, e segue o jovem professor de literatura Gabriel (Caio Macedo), que recém chegou à cidade. Ele conversa mentalmente com a sua avó, sua grande parceira e que faleceu, enquanto recebe mensagens do pai, que vive ordenando sua volta para a terra natal e “abandone” o pecado de sua vida.
Tentando se ambientar no Rio de Janeiro, frequenta boates gays, e em uma delas, de propriedade de Mônica (Diva Menner, que fez história como a primeira mulher transgênero a participar do reality The Voice Brasil), ele conhece Adriano (Alejandro Claveaux), um garoto de programa uruguaio, por quem se apaixona perdidamente. Os dois acabam tendo um relacionamento intenso, mas ao mesmo tempo fugaz. Adriano, porém, é uma alma livre, e certo dia desaparece, para desespero de Gabriel, que se afunda em desespero.
Então, o professor passa a circular pelas noites cariocas tentando encontrar o motivo de sua paixão, enquanto busca apoio na boate gay de Mônica, onde é acolhido pelos frequentadores da casa.
Felipe Sholl, que também assina o roteiro, constrói uma narrativa intensa com olhar atento às margens sociais. “Ruas da Glória é um filme muito pessoal pra mim e espero que as pessoas se identifiquem também. É um filme cheio de amor, que fala sobre emoções intensas, luto, e busca de conexão”, afirma o diretor. “Ruas da Glória” revela uma jornada imersiva de pertencimento e busca por amor e conexão. Em meio a uma atmosfera mundana e sob a ótica de seu protagonista que, a fim de lidar com o luto, o atravessa de forma controversa ao vivenciar seus desejos.
Cotação: bom
Duração: 1h47m
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=9dBPSp4BNbQ

“CHEIRO DE DIESEL”

Foto: Amana Cine
“Cheiro de Diesel, é um documentário dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, e se propõe a investigar os impactos das operações militares nas favelas do Rio de Janeiro, especialmente durante o período dos grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, quando diferentes territórios foram ocupados sob operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).
A obra se constrói a partir de relatos de moradores de regiões como Maré, Penha e Morro do Salgueiro, que trazem em suas histórias as consequências diretas da presença militar no cotidiano dessas populações. A narrativa reúne denúncias de violações de direitos, incluindo invasões a casas, escolas e unidades de saúde, além de episódios de revistas constantes e assassinatos.
Esses relatos também revelam como os efeitos dessas operações permanecem no tempo. “Os traumas são permanentes. Todas as pessoas têm muito viva a memória do tanque na sua porta, do cheiro do diesel, da tortura e da falta de informação”, afirma Natasha Neri.
A diretora Gizele Martins, jornalista e comunicadora da Favela da Maré, premiada com o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, aponta que a ocupação militar da Maré serviu como base para ações semelhantes em outras favelas do Rio. “Este é um filme que retrata a minha própria realidade”, afirma. “A democracia ainda é um sonho pra gente que vive nesses territórios”.
Ao lado dela, Natasha Neri contribui com sua experiência na direção de documentários e pesquisas sobre justiça criminal. Diretora de “Auto de Resistência”, premiado no festival É Tudo Verdade, Neri desenvolve “Cheiro de Diesel“ a partir do acompanhamento direto de casos de violência de Estado e da relação com familiares de vítimas ao longo dos últimos anos. “O filme nasce dessa luta para dar visibilidade às famílias, vítimas de violações praticadas pelas forças armadas”, explica.
A partir dessas histórias, o documentário também mostra quais são os obstáculos enfrentados na busca por justiça. Muitos dos casos retratados são conduzidos pela justiça militar, o que limita o acesso à informação e à responsabilização. “Nenhuma das famílias teve reparação. Nenhuma teve o mínimo de acesso à informação”, conta Neri.
A partir de tudo isso, “Cheiro de Diesel” se constrói como um filme de denúncia e memória. “A ideia é registrar esse período e convidar o espectador a refletir sobre essa cidade dividida”, disse Gizele e Natasha completa: “As forças armadas não são solução para a segurança pública”.
Cotação: bom
Duração: 1h22m
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=hHoJA8RqAPY

COLETIVO AUDIOVISUAL TV OVO COMPLETA 30 ANOS, MOSTRANDO QUE CINEMA É PARA TODOS

Texto: Homero Pivotto Jr Foto: Oficina Olhares da Comunidade EMEF Adelmo Simas Genro / Nathália Arantes O PENSAMENTO COMUM no meio audio...