“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” é o primeiro longa-metragem do cineasta cearense Rosemberg Cariry. O filme é um marco no cinema brasileiro, sendo também considerado o primeiro documentário em longa-metragem realizado no estado do Ceará.
Ele foi lançado originalmente em 1986, e volta agora, 40 anos depois, marcando os 50 anos de carreira de Rosemberg Cariry e os 100 anos da criação da Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, liderada pelo beato José Lourenço. A comunidade foi um marco de construção social solidária no Ceará até sua destruição violenta em 1936. O massacre foi perpetrado por uma conjunção reacionária de forças políticas e do clero conservador, valendo-se do braço armado do Estado, que invadiu o território em setembro daquele ano. A perseguição aos remanescentes estendeu-se até o bombardeio aéreo dos acampamentos de refugiados na Serra do Araripe, em maio de 1937, um período de intensa agitação nacional que antecedeu a instalação da ditadura do Estado Novo, por Getúlio Vargas.
O Caldeirão é um lugar real e simbólico que, embora destruído, renasce agora como patrimônio da história, da luta e da cultura do povo brasileiro. A violência policial resultou em muitas vítimas, com estimativas que variam para além de mil camponeses mortos, em um dos episódios mais trágicos da história do Nordeste brasileiro. Essa destruição de uma comunidade camponesa igualitária é frequentemente comparada ao massacre de Canudos, embora em menor escala, representando a repressão da elite brasileira contra movimentos sociorreligiosos que buscavam autonomia e vivência comunitária no sertão, fugindo da exploração dos latifúndios.
Com roteiro escrito por Cariry e Firmino Holanda e fotografia de Ronaldo Nunes, “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” reuniu depoimentos raros e inéditos de sobreviventes e até de algozes do massacre da comunidade. “Durante décadas, foi um tabu falar desse episódio tão trágico, até que um grupo de jovens cearenses resolveu fazer um filme, quando o país vivia o seu processo de redemocratização. Graças a esse resgate histórico, a memória da comunidade não se perdeu; ao contrário, continua a pulsar, despertando reflexões e inspirando movimentos de organização comunitária, sobretudo no âmbito do Movimento Sem Terra. Considero o filme O Caldeirão a conquista de uma geração que ousou fazer cinema em uma época em que, no Ceará, quase nada apontava para esse caminho”, afirma Cariry.
Cultuado e reconhecido por seu pioneirismo e por sua experimentação insubmissa, o filme permanece como um documento vivo e uma experiência estética singular, unindo a narrativa histórica à força e à diversidade das culturas populares em uma construção narrativa ousada para a época. Trata-se de um registro inestimável entre o tempo da história e o tempo da arte, reafirmando o compromisso de vida do cineasta com o resgate das memórias profundas do povo cearense e nordestino.
Duração: 87 minutos
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=TkW-MgpcoGI


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